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Como a adenomiose é abordada no cuidado em saúde

A adenomiose, a endometriose e os miomas podem compartilhar sintomas e coexistir, mas não são a mesma condição. Conheça as diferenças, os limites dos exames e os princípios que orientam a avaliação e o cuidado.

Limite deste conteúdo: Este conteúdo é exclusivamente informativo e educacional. Não substitui consulta, avaliação individual, diagnóstico ou tratamento realizado por profissional habilitado. Sintomas, sinais ou resultados de exames não permitem autodiagnóstico. A definição diagnóstica e a interpretação do conjunto clínico devem ser realizadas por profissional de saúde habilitado, dentro de sua competência.

A adenomiose é uma condição ginecológica benigna em que glândulas e estroma — tecidos semelhantes aos encontrados no endométrio, camada interna do útero — estão presentes no miométrio, a camada muscular uterina. Essa localização é o principal elemento que a diferencia da endometriose, na qual tecido semelhante ao endométrio se encontra fora da cavidade uterina, em diferentes regiões do organismo.

A diferença é importante, mas nem sempre simples na prática. Adenomiose, endometriose e leiomiomas, conhecidos como miomas, podem produzir sintomas parecidos e também podem ocorrer simultaneamente. Por isso, a abordagem em saúde não costuma se basear em um sintoma isolado ou em um único achado de exame. Ela considera a história clínica, o exame físico quando indicado, os exames de imagem, outras causas possíveis e as prioridades da pessoa.

O que caracteriza a adenomiose

Na adenomiose, as alterações estão relacionadas ao próprio músculo do útero. Esse processo pode modificar a estrutura uterina e estar associado a manifestações como sangramento uterino aumentado, cólicas menstruais intensas, dor pélvica e dor durante a relação sexual. Algumas pessoas não apresentam sintomas, enquanto outras relatam impacto relevante na rotina e na qualidade de vida.

A intensidade dos sintomas não pode ser deduzida apenas pela extensão ou pela quantidade de sinais observados em um exame de imagem. Da mesma forma, a presença de adenomiose em um exame não demonstra, por si só, que todos os sintomas tenham essa origem. Essa é uma das razões pelas quais a interpretação precisa ser clínica e individualizada.

Ainda não existe consenso internacional plenamente consolidado para todos os aspectos da definição, da classificação e do estadiamento da adenomiose. Critérios usados em estudos e serviços podem variar, assim como a forma de descrever os achados nos laudos. Um documento internacional de boas práticas publicado em 2026 pela ESHRE, ESGE e WES ainda está em desenvolvimento e sujeito a revisão; portanto, não deve ser tratado como diretriz final .

Adenomiose, endometriose e miomas: diferenças essenciais

A adenomiose e a endometriose são condições distintas. Na primeira, o tecido semelhante ao endométrio está localizado no miométrio. Na segunda, esse tecido está fora da cavidade uterina, podendo envolver, por exemplo, estruturas pélvicas. A endometriose é abordada em diretrizes próprias, como a da ESHRE e o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas do Ministério da Saúde para endometriose no SUS. Esses documentos não constituem protocolos específicos para adenomiose .

Os miomas são tumores benignos formados por tecido muscular e fibroso do útero. Eles também podem estar associados a sangramento aumentado, dor, sensação de pressão ou alterações reprodutivas. A localização e o tamanho dos miomas ajudam a compreender suas possíveis repercussões, mas sintomas semelhantes podem ocorrer mesmo quando as condições são diferentes.

A síndrome dos ovários policísticos e a síndrome do intestino irritável são outras condições que podem entrar na avaliação de sintomas sobrepostos. Irregularidade menstrual, dor abdominal, distensão, constipação ou diarreia não distinguem sozinhas essas condições de doenças ginecológicas. Sintomas intestinais relacionados ao ciclo, por exemplo, podem aparecer em contextos diversos e não devem ser automaticamente atribuídos à endometriose ou à adenomiose .

A coexistência é possível

A presença de uma dessas condições não exclui as demais. Estudos observam coexistência entre adenomiose e endometriose, bem como entre doenças ginecológicas estruturais, embora as estimativas variem conforme a população analisada, o método diagnóstico e o motivo da investigação .

Quando mais de uma condição está presente, pode ser difícil atribuir cada sintoma a uma única causa. Dor pélvica, sangramento aumentado e dificuldades reprodutivas podem resultar de mecanismos combinados ou de fatores não relacionados diretamente à adenomiose. Essa sobreposição também limita a interpretação de estudos que tentam medir os efeitos de cada doença separadamente.

Como a investigação costuma ser estruturada

A investigação geralmente começa pela compreensão do padrão dos sintomas, do sangramento, da dor, de possíveis repercussões como anemia e de outras condições de saúde. Dependendo do contexto, podem ser considerados exame ginecológico, exames laboratoriais e métodos de imagem. A avaliação de sangramento uterino anormal também precisa considerar causas estruturais e não estruturais, conforme a classificação PALM-COEIN, na qual a adenomiose é uma causa estrutural .

A ultrassonografia transvaginal costuma ser o exame inicial mais acessível em muitos cenários. Sua utilidade depende da qualidade do equipamento, da experiência do profissional e dos critérios usados para descrever os achados. O consenso MUSA, publicado em 2022, procurou tornar mais consistente a linguagem dos laudos, diferenciando sinais ultrassonográficos diretos e indiretos de adenomiose . A padronização melhora a comunicação, mas não elimina a variabilidade entre examinadores nem substitui a avaliação clínica.

A ressonância magnética pode complementar a ultrassonografia quando há dúvida diagnóstica, anatomia complexa, suspeita de condições associadas ou necessidade de maior detalhamento anatômico. Uma revisão sistemática com meta-análise comparativa publicada em 2023 observou que os dois métodos apresentam resultados influenciados pelos critérios diagnósticos, pelo padrão de referência e pela experiência de quem realiza ou interpreta o exame . Assim, não é adequado afirmar que a ressonância seja obrigatória para todas as pessoas ou que a ultrassonografia seja suficiente em todas as situações.

O diagnóstico por imagem é clínico-radiológico. A confirmação histológica, baseada na análise do tecido, permanece uma referência importante, mas geralmente só está disponível quando há retirada cirúrgica do útero. Isso não significa que a confirmação histológica seja necessária antes de qualquer forma de cuidado. Também não significa que um achado de imagem seja uma explicação absoluta para todos os sintomas.

Como o cuidado pode ser organizado

A diretriz canadense de 2023 descreve o manejo da adenomiose como individualizado, considerando sintomas, idade, comorbidades, desejo de preservar o útero, planos reprodutivos, contraindicações e preferências . Essa formulação é importante porque não há uma estratégia única que se aplique a todas as pessoas, nem evidência suficiente para tratar todo achado de adenomiose identificado por imagem quando não há sintomas relevantes.

Em termos gerais, o cuidado pode envolver:

  • abordagem do sangramento e da dor, levando em conta outras causas possíveis;
  • opções hormonais ou não hormonais, cuja escolha depende do contexto clínico e das características de cada pessoa;
  • procedimentos intervencionistas ou técnicas uterinas preservadoras em situações selecionadas;
  • cirurgia, quando os benefícios esperados, os riscos e os objetivos reprodutivos forem discutidos individualmente.

Essas categorias não equivalem a uma prescrição. A literatura ainda apresenta incertezas sobre a comparação entre diferentes medicamentos, a duração ideal de tratamentos, a eficácia relativa de procedimentos e os resultados de cirurgias conservadoras. Diretrizes internacionais reconhecem que parte importante dos estudos tem amostras pequenas, critérios variados e acompanhamento limitado .

A histerectomia — retirada cirúrgica do útero — é considerada o tratamento definitivo para a adenomiose localizada no útero, mas elimina a possibilidade de gestação. Não deve ser apresentada como única alternativa nem como consequência inevitável do diagnóstico. A decisão, quando discutida, depende de fatores clínicos e das preferências da pessoa, em uma conversa que deve incluir benefícios, riscos e implicações reprodutivas.

Fertilidade e gravidez: o que as evidências permitem dizer

A adenomiose pode estar associada à subfertilidade, termo usado para descrever maior dificuldade para obter uma gestação, mas não causa infertilidade em todas as pessoas. As estimativas de frequência e os resultados reprodutivos variam muito entre os estudos, em parte porque os critérios diagnósticos e as populações são diferentes .

Também é possível que a adenomiose coexista com endometriose, miomas, idade reprodutiva mais avançada ou fatores relacionados à reprodução assistida. Separar o efeito de cada elemento é metodologicamente difícil. Por isso, não é possível transformar a presença de adenomiose em uma previsão individual sobre a possibilidade de engravidar.

Revisões sistemáticas observam associações entre adenomiose e alguns desfechos obstétricos, como aborto espontâneo, pré-eclâmpsia, parto prematuro, alterações placentárias e hemorragia pós-parto. Entretanto, a revisão ADELIN, publicada em 2025, classificou a certeza da evidência como baixa ou muito baixa para diversos desfechos, com possível influência de idade, endometriose, reprodução assistida e outras condições . Associação estatística não prova causalidade e não determina a evolução de uma gravidez específica.

Também permanece incerto quando a adenomiose deveria ser tratada antes de uma tentativa de gestação ou de um tratamento de reprodução assistida. Estratégias hormonais anteriores à transferência embrionária e cirurgias uterinas preservadoras são temas de debate, com resultados heterogêneos. Não há base para apresentar uma conduta como universal ou para garantir preservação da fertilidade após um tratamento conservador .

Por que a abordagem precisa ser compartilhada

A adenomiose pode afetar dor, sangramento, sexualidade, disposição, saúde emocional e planos reprodutivos de maneiras diferentes. Além disso, a literatura ainda não esclarece completamente a relação biológica entre adenomiose e endometriose. Há hipóteses de mecanismos compartilhados, mas isso não transforma automaticamente as duas condições em uma única doença.

Uma abordagem responsável deve explicar o grau de certeza das informações, diferenciar achado de exame de diagnóstico clínico, considerar diagnósticos associados e discutir o que é prioritário para aquela pessoa. Em alguns casos, o foco pode ser o controle do sangramento; em outros, a dor, a anemia, a preservação uterina ou as questões reprodutivas. Essas prioridades não são definidas por um protocolo único aplicável a todos.

Sangramento muito intenso, sinais compatíveis com anemia, dor incapacitante, sintomas persistentes ou suspeita de gravidez são situações em que uma avaliação profissional pode ser necessária, especialmente quando há piora ou repercussão importante no estado geral. Essa informação é geral e não permite concluir a causa dos sintomas.

Em resumo

A adenomiose não é simplesmente uma forma de endometriose. Ela se caracteriza pela presença de tecido semelhante ao endométrio no músculo uterino, enquanto a endometriose envolve localizações fora da cavidade uterina. Miomas e outras condições também podem compartilhar manifestações ou coexistir.

A ultrassonografia transvaginal é frequentemente utilizada na investigação inicial, e a ressonância magnética pode complementar a avaliação em contextos específicos. Nenhum exame deve ser interpretado isoladamente. O cuidado pode incluir diferentes modalidades, e a escolha depende dos sintomas, dos objetivos reprodutivos, das condições associadas, dos riscos e das preferências da pessoa. Como várias evidências ainda são limitadas ou heterogêneas, decisões individualizadas e comunicação clara sobre incertezas são partes centrais do cuidado.

Importante: Este conteúdo é exclusivamente informativo e educacional. Não substitui consulta, avaliação individual, diagnóstico ou tratamento realizado por profissional habilitado. Sintomas, sinais ou resultados de exames não permitem autodiagnóstico. A definição diagnóstica e a interpretação do conjunto clínico devem ser realizadas por profissional de saúde habilitado, dentro de sua competência. Em caso de dúvida sobre sintomas, exames, medicamentos, alimentação, tratamento ou qualquer decisão relacionada à saúde, procure orientação de profissional habilitado.

Referências e fontes

Referências apresentadas em formato bibliográfico padronizado segundo convenções da ABNT para documentos online, com link para a fonte consultada e data de acesso.

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