Início › Adenomiose e condições relacionadas › Como é realizada a investigação da adenomiose
Adenomiose e condições relacionadas · conteúdo informativo

Como é realizada a investigação da adenomiose

A investigação combina história clínica, exame ginecológico e métodos de imagem. Nenhum achado deve ser interpretado isoladamente, e adenomiose, endometriose e miomas podem coexistir.

Limite deste conteúdo: Este conteúdo é exclusivamente informativo e educacional. Não substitui consulta, avaliação individual, diagnóstico ou tratamento realizado por profissional habilitado. Sintomas, sinais ou resultados de exames não permitem autodiagnóstico. A definição diagnóstica e a interpretação do conjunto clínico devem ser realizadas por profissional de saúde habilitado, dentro de sua competência.

A investigação da adenomiose costuma começar pela compreensão dos sintomas, do padrão do sangramento e do histórico ginecológico, seguida de exame físico e métodos de imagem. Na prática, a ultrassonografia transvaginal é frequentemente o primeiro exame de imagem, enquanto a ressonância magnética pode complementar a avaliação em situações de dúvida, anatomia complexa ou necessidade de maior mapeamento.

Isso não significa que um laudo, sozinho, confirme que todos os sintomas tenham relação com a adenomiose. A interpretação depende da qualidade do exame, dos critérios utilizados, da experiência de quem realiza e analisa as imagens e da possibilidade de outras condições, como endometriose, leiomiomas — também chamados de miomas — e causas não ginecológicas de dor ou sangramento.

O que é adenomiose e por que a terminologia importa

A adenomiose é uma condição benigna do útero em que glândulas e estroma semelhantes ao endométrio — tecido que reveste internamente o útero — são identificados no miométrio, a camada muscular uterina. Esse processo pode vir acompanhado de alterações na organização e na aparência do músculo uterino.

A endometriose é diferente: nela, tecido semelhante ao endométrio está localizado fora da cavidade uterina, em áreas que podem incluir a pelve e outros órgãos. Portanto, a adenomiose não deve ser descrita simplesmente como uma forma ou subtipo de endometriose. As duas condições podem, entretanto, ocorrer na mesma pessoa.

Os miomas também são diferentes. Eles são tumores benignos formados por músculo e tecido fibroso do útero. Dependendo do tamanho e da localização, podem estar associados a sangramento aumentado, pressão pélvica ou dor. Como os sintomas podem se sobrepor, a investigação por imagem frequentemente precisa considerar mais de uma possibilidade.

Adenomiose, endometriose e miomas podem coexistir. Essa coexistência é uma das razões pelas quais a investigação não deve se basear em um único sintoma ou em uma única imagem.

Como começa a avaliação

A primeira etapa geralmente envolve uma conversa clínica estruturada. Podem ser considerados o padrão do sangramento menstrual, a presença de cólicas ou dor pélvica, dor durante a relação sexual, sintomas relacionados ao ciclo, histórico obstétrico e ginecológico, cirurgias anteriores e outras condições de saúde.

A descrição dos sintomas ajuda a formular hipóteses, mas não diferencia sozinha adenomiose, endometriose, miomas ou outras causas. Sangramento uterino aumentado, por exemplo, pode ocorrer em diferentes condições. Da mesma forma, a intensidade da dor não permite estimar, por si só, a extensão das alterações observadas em um exame de imagem.

O exame ginecológico pode contribuir para a avaliação do útero e de estruturas pélvicas, embora seus achados também não sejam específicos em todos os casos. Quando existe sangramento importante ou persistente, a avaliação clínica pode incluir a investigação de consequências como anemia e de outras causas possíveis, conforme o contexto. Protocolos sobre sangramento uterino anormal organizam essas causas em categorias estruturais e não estruturais; a adenomiose integra o grupo das causas estruturais.

Não há um exame de sangue isolado que, de acordo com as fontes utilizadas nesta página, estabeleça por si só a presença de adenomiose. Exames laboratoriais podem ser considerados para responder a perguntas clínicas específicas, mas não substituem a avaliação ginecológica e a imagem quando a hipótese envolve alterações do útero.

O papel da ultrassonografia transvaginal

A ultrassonografia transvaginal utiliza ondas sonoras para produzir imagens do útero, do endométrio, dos ovários e de estruturas próximas. Por ser acessível e não utilizar radiação ionizante, costuma ser o método inicial em muitos cenários de investigação ginecológica.

Na suspeita de adenomiose, a análise pode observar a espessura e a uniformidade do miométrio, a transição entre o endométrio e o músculo uterino, além de alterações focais ou difusas. A doença pode apresentar diferentes padrões: em algumas pessoas, as alterações parecem mais localizadas; em outras, podem envolver uma área mais ampla do útero.

O consenso internacional MUSA, sigla em inglês para Avaliação Morfológica Ultrassonográfica do Útero, propôs uma linguagem mais uniforme para descrever sinais associados à adenomiose. Esse consenso diferencia sinais diretos, relacionados à visualização de alterações compatíveis no miométrio, e sinais indiretos, que podem refletir mudanças na forma ou na arquitetura uterina.

A padronização melhora a comunicação entre profissionais e torna os estudos mais comparáveis. Ela, porém, não elimina a variabilidade entre examinadores, aparelhos e critérios de interpretação. Além disso, a relação entre cada sinal ultrassonográfico, a intensidade dos sintomas e a evolução clínica ainda não está completamente estabelecida.

Por esse motivo, expressões como “sinais sugestivos” ou “achados compatíveis” podem ser mais adequadas do que tratar qualquer característica isolada como confirmação absoluta. A avaliação também pode registrar a presença de miomas, alterações endometriais, cistos ovarianos ou sinais que levantem a possibilidade de endometriose associada.

Quando a ressonância magnética pode complementar a investigação

A ressonância magnética produz imagens detalhadas dos tecidos pélvicos e pode ajudar a caracterizar a espessura, a extensão e a distribuição das alterações no útero. Ela pode ser útil quando a ultrassonografia não esclarece suficientemente os achados, quando a anatomia é complexa, quando existe suspeita de condições associadas ou quando o mapeamento anatômico tem importância para o planejamento do cuidado.

A ressonância não é obrigatória para todas as pessoas com suspeita de adenomiose e não deve ser apresentada como automaticamente superior em qualquer situação. Estudos comparativos sugerem que a ultrassonografia transvaginal pode ter desempenho adequado em muitos contextos, especialmente quando realizada e interpretada por profissionais experientes. A escolha entre os métodos depende da pergunta clínica, da disponibilidade, da qualidade do primeiro exame e das características individuais avaliadas em consulta.

Assim como ocorre com a ultrassonografia, a ressonância magnética não deve ser interpretada fora do contexto clínico. Os estudos disponíveis utilizaram diferentes critérios diagnósticos e padrões de referência, o que limita a comparação direta entre resultados.

Imagem confirma a adenomiose?

Atualmente, a investigação da adenomiose é predominantemente clínico-radiológica: combina informações da história, do exame físico e dos métodos de imagem. A confirmação histológica — identificação das alterações em tecido analisado ao microscópio — é considerada uma referência importante, mas geralmente só está disponível quando existe material uterino obtido em uma cirurgia.

Isso cria uma limitação relevante. A histologia após a retirada do útero não representa necessariamente todas as pessoas avaliadas por imagem, especialmente aquelas que não passam por cirurgia. Por isso, a ausência de confirmação histológica não significa automaticamente que uma investigação por imagem seja inadequada, assim como um achado de imagem não deve ser tratado como explicação obrigatória para todos os sintomas.

A literatura ainda não possui consenso internacional plenamente consolidado sobre a definição operacional, a classificação e o estadiamento da adenomiose. Os critérios podem variar entre serviços, equipamentos, examinadores e estudos científicos. Um documento de recomendações de boa prática elaborado por sociedades internacionais em 2026 está em desenvolvimento e é um rascunho para revisão, não uma diretriz final publicada. Suas propostas devem ser compreendidas como preliminares até a publicação definitiva.

Como a investigação diferencia condições que podem coexistir

A diferenciação não depende de uma lista fixa de sintomas, mas da combinação de informações clínicas e anatômicas.

Adenomiose e endometriose

Na adenomiose, as alterações estão no miométrio, dentro da parede muscular uterina. Na endometriose, as lesões estão fora da cavidade uterina. Uma pessoa pode apresentar uma, outra ou ambas.

A dor pélvica, a dor menstrual, a dor na relação sexual e dificuldades reprodutivas podem aparecer nas duas condições. Sintomas intestinais ou urinários cíclicos podem levantar a possibilidade de endometriose, mas não são suficientes para estabelecer a causa. A síndrome do intestino irritável e outras condições também podem produzir dor, distensão, constipação ou diarreia, inclusive com variação ao longo do ciclo.

Quando há suspeita de endometriose associada, a avaliação por imagem pode ter objetivos adicionais, como investigar estruturas pélvicas além do útero. O Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas do Ministério da Saúde citado nas fontes é voltado à endometriose no SUS; ele não constitui um protocolo completo específico para adenomiose.

Adenomiose e miomas

Miomas tendem a aparecer como formações mais delimitadas no útero, enquanto a adenomiose pode produzir alterações difusas ou focais dentro do miométrio. Em alguns casos, as características se sobrepõem ou coexistem, dificultando a interpretação.

O sangramento uterino aumentado pode ocorrer nas duas condições, e a dor ou a sensação de pressão pélvica também pode ter mais de uma explicação. A descrição da localização, do tamanho e do padrão das alterações por imagem ajuda na diferenciação, mas não elimina todas as incertezas.

Adenomiose e síndrome dos ovários policísticos

A síndrome dos ovários policísticos é uma condição diferente, relacionada a alterações ovulatórias e manifestações hormonais e metabólicas. Menstruações irregulares podem ter múltiplas causas e não distinguem, sozinhas, síndrome dos ovários policísticos, adenomiose, endometriose ou outras condições.

A coexistência de diagnósticos também é possível. Por isso, um padrão menstrual irregular não deve ser atribuído automaticamente a uma única doença.

O que a investigação pode esclarecer — e o que não pode

A avaliação pode ajudar a responder se existem alterações uterinas compatíveis com adenomiose, se o padrão parece focal ou difuso, se há miomas ou outras alterações pélvicas e se é necessário aprofundar a investigação de endometriose ou de causas alternativas para os sintomas.

Ela não determina isoladamente a intensidade da dor, não prevê de forma individualizada a fertilidade e não define, por si só, qual será o cuidado mais adequado. Também não permite concluir que uma alteração encontrada seja a causa de todos os sintomas.

A adenomiose pode estar associada à subfertilidade e a alguns desfechos obstétricos em estudos observacionais. Porém, as estimativas variam conforme a população, o método diagnóstico e a presença de endometriose, miomas, idade, infertilidade prévia ou reprodução assistida. Associação estatística não prova causalidade nem permite prever a evolução de uma gestação específica.

Por que a avaliação individualizada é importante

A relevância de um achado depende do conjunto da situação clínica. Algumas pessoas podem ter alterações de imagem sem sintomas importantes; outras podem apresentar dor ou sangramento significativo com exames que não explicam completamente o quadro. A intensidade dos sintomas também não pode ser inferida apenas pelo número ou pela extensão dos sinais descritos no exame.

A definição de cuidados posteriores, quando necessária, considera fatores como sintomas, anemia ou outras consequências do sangramento, idade, condições associadas, desejo de preservar o útero, planos reprodutivos, possíveis contraindicações e preferências. O tratamento da adenomiose é abordado em uma página própria e não é objetivo desta explicação sobre investigação.

Sangramento muito intenso, sinais compatíveis com anemia, dor incapacitante, sintomas persistentes ou suspeita de gravidez são situações em que pode ser necessária avaliação profissional, especialmente quando há piora súbita ou repercussão importante no estado geral. Essa orientação é geral e não estabelece uma causa para os sintomas.

Em resumo

A investigação da adenomiose não se resume a realizar um exame. Ela combina história clínica, exame ginecológico e imagem, com a ultrassonografia transvaginal frequentemente ocupando o primeiro lugar e a ressonância magnética podendo complementar a avaliação em situações selecionadas.

Adenomiose, endometriose e miomas são condições distintas, mas podem coexistir e compartilhar sintomas. Os critérios de imagem estão mais padronizados do que no passado, especialmente com a terminologia MUSA, porém ainda existem variações e limitações. Por isso, resultados de exames precisam ser interpretados no contexto clínico, sem transformar um achado isolado em diagnóstico absoluto ou em previsão sobre sintomas, fertilidade ou evolução futura.

Importante: Este conteúdo é exclusivamente informativo e educacional. Não substitui consulta, avaliação individual, diagnóstico ou tratamento realizado por profissional habilitado. Sintomas, sinais ou resultados de exames não permitem autodiagnóstico. A definição diagnóstica e a interpretação do conjunto clínico devem ser realizadas por profissional de saúde habilitado, dentro de sua competência. Em caso de dúvida sobre sintomas, exames, medicamentos, alimentação, tratamento ou qualquer decisão relacionada à saúde, procure orientação de profissional habilitado.

Referências e fontes

Referências apresentadas em formato bibliográfico padronizado segundo convenções da ABNT para documentos online, com link para a fonte consultada e data de acesso.

  1. 1
    Journal of Obstetrics and Gynaecology Canada. Guideline No. 437: Diagnosis and Management of Adenomyosis. 2023. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/37244746/. Acesso em: 1 set. 2026.
  2. 2
    Ultrasound in Obstetrics & Gynecology. Consensus on revised definitions of Morphological Uterus Sonographic Assessment (MUSA) features of adenomyosis: results of a modified Delphi procedure. 2022. Disponível em: https://obgyn.onlinelibrary.wiley.com/doi/full/10.1002/uog.24786. Acesso em: 1 set. 2026.
  3. 3
    INTERNATIONAL JOURNAL OF GYNECOLOGY & OBSTETRICS. Transvaginal ultrasound versus magnetic resonance imaging for diagnosing adenomyosis: a systematic review and head-to-head meta-analysis. 2023. Disponível em: https://obgyn.onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1002/ijgo.14609. Acesso em: 1 set. 2026.
  4. 4
    EUROPEAN SOCIETY OF HUMAN REPRODUCTION AND EMBRYOLOGY (ESHRE). Good Practice Recommendations on Adenomyosis. 2026. Disponível em: https://www.eshre.eu/Adenomyosis-guideline. Acesso em: 1 set. 2026.
  5. 5
    FEDERAÇÃO BRASILEIRA DAS ASSOCIAÇÕES DE GINECOLOGIA E OBSTETRÍCIA (FEBRASGO). Sangramento uterino anormal. 2018. Disponível em: https://www.febrasgo.org.br/images/pec/Protocolos-assistenciais/Protocolos-assistenciais-ginecologia.pdf/Sangramento-uterino-anormal.pdf. Acesso em: 1 set. 2026.
  6. 6
    EUROPEAN SOCIETY OF HUMAN REPRODUCTION AND EMBRYOLOGY (ESHRE). ESHRE guideline: endometriosis. 2022. Disponível em: https://www.eshre.eu/Guidelines-and-Legal/Guidelines/Endometriosis-guideline.aspx. Acesso em: 1 set. 2026.
  7. 7
    NATIONAL LIBRARY OF MEDICINE (US). PUBMED CENTRAL. Artigo no PubMed Central PMC12495417. Disponível em: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC12495417/. Acesso em: 1 set. 2026.