Início › Abordagens de cuidado › Cuidado multidisciplinar na endometriose
Abordagens de cuidado · conteúdo informativo

Cuidado multidisciplinar na endometriose

O cuidado da endometriose pode envolver diferentes profissionais e modalidades. A combinação depende dos sintomas, dos objetivos da pessoa, da localização da doença, dos riscos e das evidências disponíveis.

Limite deste conteúdo: Este conteúdo é exclusivamente informativo e educacional. Não substitui consulta, avaliação individual, diagnóstico ou tratamento realizado por profissional habilitado. O texto não indica tratamento ou procedimento para uma pessoa específica. A escolha de qualquer abordagem depende de avaliação individual por profissionais habilitados.

O cuidado multidisciplinar na endometriose significa integrar diferentes perspectivas para lidar com uma doença que pode afetar dor, órgãos pélvicos, sexualidade, fertilidade, saúde mental e atividades cotidianas. Não se trata de aplicar um pacote fixo de tratamentos nem de presumir que todas as pessoas precisarão de vários especialistas. A composição da equipe e os objetivos do acompanhamento podem mudar ao longo do tempo.

Em geral, as decisões consideram sintomas, impacto funcional e qualidade de vida, localização e extensão da doença, idade, condições associadas, efeitos adversos, custos, disponibilidade dos serviços e objetivos reprodutivos. A participação da pessoa nas escolhas é parte importante desse processo.

O que significa cuidado multidisciplinar

“Multidisciplinar” descreve a participação coordenada de profissionais com competências diferentes. Dependendo das necessidades identificadas, o cuidado pode envolver atenção primária, ginecologia, profissionais especializados em dor, fisioterapia pélvica, psicologia ou psiquiatria, reprodução assistida, urologia, coloproctologia, enfermagem e outras áreas.

Isso não significa que todas essas especialidades precisem atuar simultaneamente. Em algumas situações, o acompanhamento pode permanecer concentrado em uma equipe menor; em outras, sintomas urinários, intestinais, musculoesqueléticos, sexuais ou emocionais podem justificar avaliações complementares.

A proposta é evitar uma visão exclusivamente centrada em um órgão ou em uma lesão. A dor pélvica persistente, por exemplo, pode envolver mecanismos ginecológicos, musculares, nervosos, intestinais, urinários e psicossociais. A intensidade da dor também não é determinada de maneira confiável apenas pelo tamanho, pela profundidade ou pela classificação anatômica das lesões.

Quais são os objetivos do cuidado

O Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas (PCDT) brasileiro descreve como objetivos o controle da dor, a melhora da qualidade de vida e a preservação ou busca da fertilidade quando isso faz parte dos planos da pessoa. Outros objetivos podem incluir reduzir limitações nas atividades, tratar sintomas associados, acompanhar efeitos adversos e revisar periodicamente se a estratégia continua coerente com as prioridades individuais.

Esses objetivos podem entrar em tensão. Uma abordagem voltada ao controle da dor pode não ser a mesma utilizada quando existe tentativa de gravidez no momento. Da mesma forma, uma intervenção que reduz determinado sintoma pode trazer efeitos adversos ou riscos que precisam ser ponderados. Por isso, não existe uma modalidade universalmente superior para todos os perfis.

O cuidado também pode ter caráter longitudinal: as prioridades mudam com o tempo, assim como os sintomas, os planos reprodutivos, a tolerância a uma intervenção e a disponibilidade de tratamentos. Persistência ou retorno de sintomas não prova, por si só, que a doença esteja crescendo ou que uma nova cirurgia seja necessária.

Modalidades de cuidado que podem fazer parte da abordagem

Tratamento medicamentoso

O tratamento medicamentoso pode incluir opções hormonais e não hormonais, conforme o contexto clínico. As terapias hormonais são utilizadas principalmente para reduzir a atividade cíclica e aliviar sintomas em situações apropriadas; não devem ser descritas como cura definitiva nem como eliminação comprovada de todos os implantes.

Contraceptivos hormonais combinados e progestágenos aparecem entre as opções utilizadas em determinados contextos do SUS, quando não há impedimentos clínicos. Análogos ou agonistas do hormônio liberador de gonadotrofinas (GnRH) podem ser considerados em situações selecionadas. Essa classe pode produzir efeitos relacionados à redução do estrogênio, e uma revisão Cochrane observou que não há demonstração consistente de superioridade sobre outras opções hormonais. A qualidade dos estudos também foi frequentemente baixa ou muito baixa.

Analgésicos e outras alternativas não hormonais podem participar do controle de sintomas em contextos apropriados. A escolha depende de fatores como condições de saúde, interações, riscos, duração prevista e objetivos do cuidado. Informações sobre medicamentos não devem ser convertidas em automedicação ou em mudanças por conta própria.

Quando a gestação está sendo buscada, a lógica do cuidado pode ser diferente, porque o tratamento hormonal não é usado para alcançar uma gravidez enquanto está em curso. A discussão pode envolver avaliação da fertilidade, anatomia pélvica, idade, reserva ovariana, fatores tubários e seminais e possibilidades de reprodução assistida, sem que seja possível prever o resultado individual.

Cirurgia

A cirurgia pode ser considerada em situações selecionadas, como sintomas intensos ou incapacitantes, falha ou intolerância ao tratamento clínico, determinadas alterações anatômicas, endometriomas em crescimento ou com características específicas, obstruções e comprometimento de órgãos. Esses elementos não funcionam como indicação automática isolada.

A localização da doença influencia o planejamento. Endometriose profunda, intestinal ou urinária pode exigir avaliação especializada e, em alguns casos, participação de equipes ginecológicas, urológicas e colorretais. Procedimentos nessas regiões não são simples intervenções sem riscos: podem existir consequências intestinais, urinárias, sexuais, reprodutivas e funcionais. A experiência do centro e a seleção das pessoas influenciam os resultados descritos nos estudos.

Em procedimentos ovarianos, a possível repercussão sobre a reserva ovariana — conjunto de informações relacionadas ao potencial reprodutivo dos ovários — merece ser discutida antes da intervenção, especialmente quando há desejo de gestação. A literatura não sustenta prometer que uma cirurgia aumentará a fertilidade em todas as situações. No caso de doença intestinal profunda, revisões descrevem resultados heterogêneos e controvérsias sobre o benefício reprodutivo.

Também permanece incerto qual técnica cirúrgica é universalmente superior em todos os casos de endometriose intestinal profunda. Decisões podem considerar extensão e localização das lesões, sintomas, anatomia, riscos funcionais e experiência da equipe.

Fisioterapia e cuidado da dor

A fisioterapia, inclusive quando voltada à região pélvica, pode ser discutida quando há elementos musculoesqueléticos ou alterações funcionais relacionadas à dor. Seu papel não é remover lesões endometrióticas nem substituir a avaliação médica. A evidência específica para diferentes técnicas ainda é limitada e heterogênea.

A avaliação de dor persistente pode considerar tensão ou disfunção muscular, sensibilização do sistema nervoso, sintomas urinários e intestinais, dor na relação sexual e limitações de movimento. O objetivo é compreender os mecanismos envolvidos e reduzir o impacto funcional, sem atribuir automaticamente cada sintoma à endometriose.

Apoio psicológico e saúde mental

Dor crônica, incerteza diagnóstica, dificuldades sexuais, alterações na rotina e preocupações reprodutivas podem afetar o bem-estar emocional. Psicologia ou psiquiatria podem integrar o cuidado quando há sofrimento psíquico, ansiedade, depressão, dificuldades de adaptação ou necessidade de apoio para lidar com uma condição persistente.

Esse componente não significa considerar a dor “apenas emocional”. A abordagem reconhece que fatores biológicos, emocionais, sociais e relacionais podem interagir e influenciar a experiência da dor e a qualidade de vida. O apoio psicológico também pode favorecer comunicação, tomada de decisão e enfrentamento, sem prometer eliminar a doença.

Reprodução e planejamento reprodutivo

Quando a fertilidade é uma prioridade, a equipe pode discutir as implicações de diferentes alternativas. A conversa pode incluir o momento desejado para engravidar, histórico de cirurgias, reserva ovariana, anatomia pélvica, outros fatores de infertilidade e reprodução assistida.

A preservação da fertilidade não é uma recomendação automática para todas as pessoas com endometriose. Seu possível papel depende de idade, reserva ovariana, extensão da doença, cirurgias anteriores, planos reprodutivos e avaliação especializada. Da mesma forma, a cirurgia não deve ser apresentada como garantia de gravidez ou como forma comprovada de evitar infertilidade.

Educação em saúde e acompanhamento

Educação em saúde ajuda a compreender a natureza crônica da endometriose, as finalidades das modalidades disponíveis, as incertezas dos estudos, a possibilidade de persistência ou recorrência de sintomas e os efeitos adversos que podem ser relevantes. O acompanhamento pode incluir revisão de dor, qualidade de vida, função intestinal e urinária, sexualidade, saúde emocional e segurança das intervenções.

A atenção primária pode ter papel importante no acompanhamento longitudinal, na coordenação do cuidado e no reconhecimento de necessidades que exigem encaminhamento. Serviços especializados podem participar quando há maior complexidade anatômica, sintomas persistentes, suspeita de envolvimento de órgãos ou questões reprodutivas específicas.

Como as decisões são individualizadas

A decisão compartilhada é uma forma de comunicação em que profissional e pessoa discutem alternativas, benefícios esperados, riscos, efeitos adversos, incertezas e preferências. Ela não significa que todas as opções sejam adequadas para todos os casos, mas que a escolha não se baseia apenas em uma imagem, em um estágio anatômico ou em uma regra fixa.

Entre os aspectos que podem ser considerados estão:

  • sintomas e impacto sobre trabalho, estudo, sono, relações e atividades diárias;
  • localização e extensão da endometriose, quando conhecidas;
  • possíveis sintomas intestinais, urinários, musculares ou sexuais;
  • idade, condições associadas e tratamentos prévios;
  • desejo de gestação e horizonte reprodutivo;
  • efeitos adversos, riscos cirúrgicos e impacto sobre a reserva ovariana;
  • custos, acesso, disponibilidade e organização da rede de saúde;
  • qualidade e aplicabilidade das evidências para aquela situação.

Essa avaliação não transforma a página em um instrumento para escolher tratamento individual. A função das informações é explicar por que decisões semelhantes podem ser diferentes entre pessoas e por que a revisão periódica pode ser necessária.

O que ainda é incerto

A literatura sobre endometriose possui limitações importantes. Muitos estudos têm amostras pequenas, diferentes definições de desfecho, períodos de acompanhamento variados e qualidade metodológica baixa ou moderada. Nem sempre é possível separar o efeito sobre a dor daquele sobre a anatomia, a fertilidade ou a qualidade de vida.

Ainda há debate sobre o momento ideal da cirurgia em alguns endometriomas, o benefício reprodutivo de operações para doença intestinal profunda, a superioridade entre técnicas e a estratégia hormonal antes ou depois de procedimentos. Também há incerteza sobre várias intervenções complementares, como dietas específicas, suplementos, acupuntura e modalidades de exercício. Estudos heterogêneos não permitem transformar essas opções em recomendações universais ou substitutos do cuidado médico.

O PCDT do Ministério da Saúde é uma referência normativa para o SUS e pode refletir tecnologias incorporadas, disponibilidade e organização da rede pública. Ele não é automaticamente uma regra para o setor privado ou para outros países. Diretrizes internacionais, como a da ESHRE, podem apresentar diferenças de contexto e também reconhecem lacunas de evidência. Documentos e portarias devem ser conferidos quanto à versão vigente no momento da consulta.

Quando uma avaliação profissional pode ser necessária

Sintomas novos, intensos ou progressivos, desmaio, sangramento importante, febre, vômitos persistentes, dificuldade súbita para urinar ou evacuar, dor associada a mal-estar intenso ou suspeita de gestação com sintomas preocupantes podem exigir avaliação profissional em tempo oportuno. Esses sinais têm várias possíveis causas e não permitem concluir, isoladamente, que exista endometriose ou uma complicação dela.

O cuidado multidisciplinar não significa buscar numerosos atendimentos sem coordenação. Significa organizar, quando necessário, diferentes contribuições em torno de objetivos claros, comunicação transparente e reavaliação contínua. A melhor decisão depende do contexto clínico completo, das preferências e dos limites das evidências disponíveis.

Importante: Este conteúdo é exclusivamente informativo e educacional. Não substitui consulta, avaliação individual, diagnóstico ou tratamento realizado por profissional habilitado. O texto não indica tratamento ou procedimento para uma pessoa específica. A escolha de qualquer abordagem depende de avaliação individual por profissionais habilitados. Em caso de dúvida sobre sintomas, exames, medicamentos, alimentação, tratamento ou qualquer decisão relacionada à saúde, procure orientação de profissional habilitado.

Referências e fontes

Referências apresentadas em formato bibliográfico padronizado segundo convenções da ABNT para documentos online, com link para a fonte consultada e data de acesso.

  1. 1
    BRASIL. MINISTÉRIO DA SAÚDE. Endometriose: Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas. 2018. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/pcdt/e/endometriose/view. Acesso em: 1 set. 2026.
  2. 2
    EUROPEAN SOCIETY OF HUMAN REPRODUCTION AND EMBRYOLOGY (ESHRE). ESHRE guideline: endometriosis. 2022. Disponível em: https://www.eshre.eu/Guidelines-and-Legal/Guidelines/Endometriosis-guideline.aspx. Acesso em: 1 set. 2026.
  3. 3
    WORLD HEALTH ORGANIZATION (WHO). Endometriosis. 2023. Disponível em: https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/endometriosis. Acesso em: 1 set. 2026.
  4. 4
    FEDERAÇÃO BRASILEIRA DAS ASSOCIAÇÕES DE GINECOLOGIA E OBSTETRÍCIA (FEBRASGO). Dor pélvica crônica. 2020. Disponível em: https://www.febrasgo.org.br/images/pec/Protocolos-assistenciais/Protocolos-assistenciais-ginecologia.pdf/2020-Dor-Plvica-Crnica.pdf. Acesso em: 1 set. 2026.
  5. 5
    Cochrane Database of Systematic Reviews. Cochrane Review, DOI: 10.1002/14651858.CD014788.pub2. 2023. Disponível em: https://www.cochranelibrary.com/cdsr/doi/10.1002/14651858.CD014788.pub2/full. Acesso em: 1 set. 2026.
  6. 6
    Cochrane Database of Systematic Reviews. Cochrane Review, DOI: 10.1002/14651858.CD003678.pub2. 2020. Disponível em: https://www.cochranelibrary.com/cdsr/doi/10.1002/14651858.CD003678.pub2/full. Acesso em: 1 set. 2026.
  7. 7
    PubMed. Artigo indexado no PubMed: PMID 36184064. 2022. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/36184064/. Acesso em: 1 set. 2026.
  8. 8
    PubMed. Artigo indexado no PubMed: PMID 28419418. 2017. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/28419418/. Acesso em: 1 set. 2026.