A endometriose superficial, também chamada de endometriose peritoneal superficial, corresponde à presença de tecido semelhante ao endométrio — o revestimento interno do útero — em áreas superficiais do peritônio, uma membrana que recobre parte dos órgãos e da parede abdominal. O termo “superficial” descreve principalmente a profundidade anatômica da lesão; não significa necessariamente sintomas leves, ausência de impacto na qualidade de vida ou menor necessidade de cuidado.
A abordagem não é definida apenas pelo aspecto da lesão. Em geral, a avaliação considera a intensidade e o padrão dos sintomas, o impacto sobre atividades cotidianas, vida sexual e saúde emocional, os objetivos reprodutivos, outras condições de saúde, tratamentos anteriores, possíveis efeitos adversos, riscos e disponibilidade das opções. Por isso, duas pessoas com alterações anatômicas semelhantes podem receber propostas de cuidado diferentes.
O que significa abordar a endometriose superficial
O cuidado em saúde pode ter objetivos distintos, que nem sempre são alcançados pela mesma modalidade. Entre os objetivos descritos em diretrizes estão:
- reduzir dor pélvica, cólicas menstruais e outros sintomas associados;
- melhorar qualidade de vida, sono, relações sociais, vida sexual e capacidade funcional;
- lidar com consequências relacionadas à dor persistente, como tensão muscular, sofrimento emocional ou afastamento de atividades;
- considerar a preservação ou a busca de fertilidade quando isso fizer parte dos planos da pessoa;
- acompanhar resposta, tolerabilidade, segurança e possíveis mudanças ao longo do tempo.
O objetivo do tratamento hormonal, por exemplo, costuma estar relacionado à redução da atividade cíclica e dos sintomas. Ele não deve ser apresentado como cura definitiva, eliminação comprovada de todos os implantes ou garantia de que a doença não voltará a causar sintomas.
Também é importante diferenciar controle de sintomas de alteração anatômica. A melhora da dor não demonstra, por si só, que todas as lesões desapareceram. Da mesma forma, a persistência da dor não prova automaticamente que as lesões aumentaram ou que seria necessária uma nova cirurgia. A dor pélvica pode envolver mecanismos ginecológicos, musculoesqueléticos, intestinais, urinários, neuropáticos e psicossociais, que podem coexistir.
Acompanhamento e reavaliação ao longo do tempo
Nem toda situação exige uma intervenção imediata. Dependendo do contexto clínico, o cuidado pode incluir acompanhamento periódico dos sintomas, da qualidade de vida, dos efeitos adversos e dos objetivos da pessoa. Essa estratégia não equivale a ignorar a doença: significa observar sua evolução clínica e rever as decisões quando houver mudança relevante.
O acompanhamento pode ser especialmente importante porque a endometriose é uma condição crônica e os objetivos podem mudar. Uma pessoa que não deseja gestação no momento pode valorizar sobretudo o controle da dor; em outra fase, o planejamento reprodutivo pode modificar a discussão sobre opções hormonais, cirurgia ou reprodução assistida. A decisão também pode ser revista diante de efeitos indesejáveis, novas informações ou alterações na rotina.
As formas de acompanhamento e os exames utilizados dependem da avaliação profissional. A aparência ou a localização de uma lesão em um exame não determina isoladamente a intensidade da dor, o prognóstico ou a modalidade de cuidado mais adequada.
Tratamentos medicamentosos: objetivos e limites
As opções medicamentosas podem ser hormonais ou não hormonais. A escolha depende de fatores como sintomas predominantes, possibilidade de contraindicações, efeitos adversos, desejo de gestação, interações com outras condições e disponibilidade no sistema de saúde.
No contexto do Sistema Único de Saúde, o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas (PCDT) da Endometriose descreve opções hormonais, incluindo contraceptivos combinados e progestágenos, em contextos definidos pelo protocolo. Essas alternativas são utilizadas principalmente para o controle de sintomas em pessoas para as quais a gestação não está sendo buscada naquele momento. Não são apresentadas como apropriadas para todas as pessoas nem como tratamento universal.
Os análogos ou agonistas do hormônio liberador de gonadotrofinas, conhecidos como análogos de GnRH, reduzem temporariamente a estimulação hormonal dos ovários. O PCDT os situa em situações selecionadas, e a revisão Cochrane de 2023 observou que podem reduzir dor em alguns contextos, mas não demonstrou superioridade consistente sobre outras opções hormonais. Efeitos relacionados à redução do estrogênio, incluindo sintomas vasomotores e perda de densidade mineral óssea, são aspectos relevantes da avaliação profissional.
Analgésicos e anti-inflamatórios também podem fazer parte do manejo da dor em contextos apropriados, mas a escolha e a segurança dependem do histórico de saúde, de outros medicamentos e de possíveis riscos. A automedicação ou o uso prolongado sem acompanhamento pode trazer danos e não substitui a avaliação da causa da dor.
Quando a cirurgia entra na discussão
A cirurgia pode ser considerada em situações selecionadas. O PCDT brasileiro cita, entre os contextos gerais de consideração, sintomas incapacitantes, falha ou intolerância ao tratamento clínico, alterações anatômicas relevantes, endometriomas em crescimento ou maiores que 4 cm, obstrução intestinal, lesões ureterais com dilatação e algumas situações de infertilidade associada. Esses elementos não funcionam como uma regra automática: a decisão depende da avaliação completa e do equilíbrio entre benefícios, riscos e alternativas.
No caso da endometriose superficial, a cirurgia pode envolver a remoção ou a ablação de lesões identificadas durante um procedimento. Entretanto, a utilidade de operar exclusivamente com a finalidade de tratar dor precisa ser analisada com cautela. A relação entre quantidade ou aparência das lesões e intensidade da dor é imperfeita, e a remoção de uma alteração visível não garante desaparecimento da dor ou prevenção de recorrência.
A conversa sobre cirurgia pode incluir:
- qual é o objetivo principal do procedimento;
- quais sintomas têm maior probabilidade de ser influenciados;
- possibilidades de persistência ou retorno dos sintomas;
- riscos anestésicos, cirúrgicos e funcionais;
- alternativas clínicas e acompanhamento;
- efeitos sobre planos reprodutivos, quando pertinentes;
- experiência da equipe com a apresentação da doença.
Cirurgias envolvendo ovários, intestino, bexiga, ureteres ou outras estruturas exigem planejamento compatível com a complexidade anatômica. Procedimentos ovarianos podem afetar a reserva ovariana, isto é, o conjunto de folículos disponíveis nos ovários, e esse possível impacto é particularmente importante quando existe desejo reprodutivo. Na endometriose intestinal ou urinária, a participação de equipes com diferentes áreas de especialidade pode ser necessária. Ainda assim, a literatura não sustenta afirmar que uma técnica cirúrgica seja superior em todas as situações.
Dor persistente e cuidado multiprofissional
A endometriose superficial pode coexistir com outras fontes de dor pélvica. A dor persistente pode envolver contração ou disfunção da musculatura do assoalho pélvico, sensibilização do sistema nervoso, alterações intestinais ou urinárias, dor na relação sexual, ansiedade, depressão e consequências de experiências prolongadas de dor. Isso não significa que o sintoma seja “apenas emocional”. Significa que diferentes mecanismos podem contribuir para a experiência dolorosa.
Por esse motivo, diretrizes e protocolos descrevem a possibilidade de cuidado multiprofissional, com participação de ginecologia, atenção primária, fisioterapia, psicologia, especialistas em dor ou outras áreas quando houver indicação. Fisioterapia pélvica, apoio psicológico, educação em saúde e outras medidas não medicamentosas podem ser componentes complementares. A evidência específica para várias dessas intervenções ainda é limitada, heterogênea e insuficiente para apresentá-las como substitutas do tratamento médico ou como soluções garantidas.
Uma abordagem centrada na pessoa também envolve comunicação respeitosa sobre sexualidade, identidade, orientação sexual e planos reprodutivos. Nem toda pessoa com endometriose deseja engravidar, e o cuidado não deve presumir um projeto de maternidade. Da mesma forma, pessoas trans e não binárias podem vivenciar sintomas, barreiras de acesso e necessidades específicas que merecem acolhimento e linguagem adequada.
Gestação e planejamento reprodutivo
Medicamentos hormonais usados para controle de sintomas não são destinados a aumentar a chance de engravidar enquanto estão sendo utilizados. Quando a pessoa busca gestação, a discussão terapêutica pode mudar e considerar idade, reserva ovariana, anatomia pélvica, trompas, fatores relacionados ao sêmen, duração da infertilidade, dor e tratamentos anteriores.
A cirurgia não deve ser apresentada como garantia de melhora da fertilidade. Estudos sobre cirurgia em endometriose profunda, especialmente intestinal, mostram resultados heterogêneos e não permitem prometer aumento das taxas de gravidez para todas as pessoas. A decisão entre acompanhamento, cirurgia e técnicas de reprodução assistida requer avaliação individualizada.
Também não há base para recomendar preservação da fertilidade de forma automática a todas as pessoas com endometriose. Essa possibilidade depende de fatores clínicos e reprodutivos, além de benefícios, limitações, custos e riscos discutidos com equipe habilitada.
O que ainda permanece incerto
Apesar dos avanços, várias decisões continuam associadas a evidências de qualidade baixa ou moderada. Persistem dúvidas sobre a superioridade de determinadas terapias hormonais, o melhor momento para cirurgia em algumas apresentações, o benefício do tratamento hormonal antes ou depois de procedimentos e o impacto da cirurgia sobre a fertilidade.
Revisões Cochrane também apontam incerteza sobre o benefício definitivo do dispositivo intrauterino liberador de levonorgestrel após cirurgia e sobre estratégias medicamentosas pré e pós-operatórias. Esses dados não significam que as opções não possam ser utilizadas; indicam que seus benefícios e limites não são iguais para todas as pessoas e precisam ser contextualizados.
O PCDT do Ministério da Saúde é uma referência normativa para o SUS e pode refletir tecnologias incorporadas, organização da rede e disponibilidade no sistema público brasileiro. Ele não deve ser interpretado como regra universal para o setor privado ou para outros países. Como documentos oficiais podem ser atualizados, a versão vigente e seus anexos precisam ser conferidos no momento da assistência.
Quando uma avaliação profissional pode ser necessária com maior brevidade
Dor pélvica súbita e intensa, desmaio, sangramento volumoso, febre persistente, vômitos contínuos, dificuldade importante para urinar ou evacuar e piora rápida do estado geral são sinais que podem exigir avaliação profissional com maior brevidade. Esses sintomas têm várias causas possíveis e não permitem concluir, por si só, que exista endometriose ou uma complicação dela.
Em síntese, a endometriose superficial pode ser abordada por acompanhamento, medicamentos, cirurgia selecionada e medidas complementares, de forma isolada ou combinada. A decisão responsável não se baseia apenas na presença de uma lesão, mas na relação entre sintomas, funcionamento, objetivos reprodutivos, riscos, preferências, evidências disponíveis e recursos da rede de cuidado.