A endometriose é uma doença inflamatória crônica na qual existe tecido semelhante ao endométrio fora da cavidade uterina. A literatura descreve a participação de inflamação, hormônios, alterações imunológicas, formação de novos vasos, fibrose e mudanças nos nervos e nos tecidos ao redor das lesões.
Isso não significa, porém, que a endometriose seja simplesmente uma inflamação passageira, nem que a inflamação explique todos os sintomas. Também não é correto afirmar que se trata de uma doença autoimune já comprovada ou que uma única teoria explique sua origem. O conhecimento atual aponta para uma condição multifatorial e heterogênea, com mecanismos que podem variar conforme a localização e as características das lesões.
O que significa dizer que a endometriose é inflamatória?
Inflamação é uma resposta biológica do organismo a uma agressão, alteração ou presença de células e tecidos em um local inadequado. Ela envolve sinais químicos, células de defesa, vasos sanguíneos e tecidos próximos. Em situações comuns, esse processo ajuda a conter um problema e tende a diminuir quando a causa é resolvida.
Na endometriose, estudos observam um microambiente — isto é, o conjunto de células, substâncias e tecidos ao redor das lesões — com produção e circulação de mediadores inflamatórios. Mediadores são moléculas que participam da comunicação entre células e podem influenciar dor, inchaço, formação de vasos e remodelamento dos tecidos.
A condição é chamada de crônica porque pode persistir por longos períodos, apresentar sintomas recorrentes e exigir acompanhamento ao longo do tempo. A inflamação associada não deve ser entendida como uma sequência contínua e idêntica em todas as pessoas. Lesões, sintomas e respostas ao cuidado podem apresentar comportamentos diferentes.
O que já está bem estabelecido
Há alguns pontos relativamente consistentes entre documentos institucionais, diretrizes e revisões especializadas:
- a endometriose pode estar associada a um ambiente inflamatório persistente;
- a atividade hormonal, especialmente a relacionada ao estrogênio, participa da manutenção de muitos processos envolvidos na doença;
- alterações imunológicas são observadas em pessoas com endometriose, mas isso não autoriza classificá-la automaticamente como doença autoimune;
- a inflamação pode contribuir para dor, aderências e fibrose, mas não determina sozinha a intensidade dos sintomas;
- a doença tem apresentações variadas, como formas superficiais, ovarianas e profundas, que podem não compartilhar exatamente os mesmos mecanismos;
- extensão anatômica e impacto clínico são dimensões diferentes.
Fibrose é o aumento e a reorganização de tecido cicatricial. Na endometriose, processos inflamatórios repetidos podem participar da formação de áreas mais rígidas, aderências e alterações na anatomia. A angiogênese, termo usado para descrever a formação de novos vasos sanguíneos, também é estudada porque pode ajudar a sustentar o tecido das lesões.
Esses mecanismos ajudam a explicar por que a doença pode envolver órgãos e tecidos próximos, mas não permitem prever o que acontecerá em uma pessoa específica. O Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas do Ministério da Saúde enfatiza que a avaliação deve considerar sintomas, localização, extensão, objetivos reprodutivos, riscos e contexto individual.
Inflamação não é sinônimo de dor
A dor relacionada à endometriose pode envolver vários processos ao mesmo tempo. A inflamação local é um deles, mas também podem participar a irritação ou infiltração de nervos, alterações nos tecidos, aderências, sensibilização periférica e sensibilização central.
Sensibilização central é uma mudança na forma como o sistema nervoso processa os sinais, podendo aumentar a resposta dolorosa. Esse conceito não significa que a dor seja imaginária ou exclusivamente psicológica. Ele mostra que a experiência dolorosa pode envolver o sistema nervoso, os órgãos afetados, o tempo de evolução e fatores emocionais e sociais.
Por isso, não é possível concluir a intensidade ou a relevância clínica da endometriose apenas pela aparência de uma lesão em exame ou pelo estágio anatômico descrito em uma classificação. Da mesma forma, a ausência de sintomas intensos não prova que não existam lesões.
Diretrizes e documentos de consenso destacam que os estágios I a IV não devem ser tratados como sinônimos automáticos de doença leve, moderada ou grave em termos de dor, fertilidade, limitação funcional ou qualidade de vida. Sistemas de classificação podem ser úteis para finalidades específicas, como descrever achados cirúrgicos ou organizar pesquisas, mas nenhum representa sozinho todas as dimensões da doença.
A endometriose é uma doença autoimune?
Até o momento, não é cientificamente adequado apresentar a endometriose como uma doença autoimune estabelecida. Doenças autoimunes costumam envolver uma resposta imunológica direcionada contra componentes do próprio organismo, com critérios diagnósticos e mecanismos específicos.
Na endometriose, pesquisas descrevem desregulação imunológica, inflamação e alterações na atividade de células de defesa. O sistema imune pode não eliminar ou controlar adequadamente células semelhantes ao endométrio que chegam a locais fora do útero. Entretanto, a interpretação dessas alterações ainda é complexa.
Permanece em debate se as mudanças imunológicas são uma causa inicial, uma consequência da implantação das lesões ou parte de um ciclo que se retroalimenta. É possível que diferentes mecanismos ocorram em momentos distintos e variem conforme a forma da doença.
Assim, a formulação mais precisa é que a endometriose está associada a alterações imunológicas e a um ambiente inflamatório. Isso é diferente de afirmar que existe uma única falha do sistema imune responsável por todos os casos.
O que causa essa inflamação?
A causa completa da endometriose ainda não está esclarecida. O modelo mais aceito é multifatorial, reunindo predisposição genética, ambiente hormonal, características dos tecidos, fatores anatômicos, inflamação e alterações imunológicas.
A menstruação retrógrada — fluxo menstrual que passa pelas tubas uterinas em direção à cavidade pélvica — é uma hipótese importante. Ela pode levar células semelhantes ao endométrio para fora do útero. No entanto, a menstruação retrógrada é considerada comum, enquanto apenas parte das pessoas desenvolve endometriose. Por isso, ela não explica sozinha a origem da doença.
Outras hipóteses estudadas incluem:
- metaplasia celômica, processo no qual determinados tecidos poderiam adquirir características semelhantes às do endométrio;
- disseminação de células por vias linfáticas ou sanguíneas;
- participação de células progenitoras, capazes de originar diferentes tipos celulares;
- alterações no microambiente dos tecidos, favorecendo a sobrevivência e a manutenção das lesões.
Essas hipóteses não são necessariamente excludentes. A origem da endometriose pode envolver mecanismos distintos em diferentes pessoas e subtipos anatômicos. A relação entre endometriose superficial, endometrioma ovariano e doença profunda ainda não está completamente definida.
Genética, hormônios e ambiente: uma interação complexa
Estudos familiares e genéticos indicam um componente hereditário. A predisposição parece ser poligênica e multifatorial: várias variantes genéticas, geralmente com efeitos pequenos, podem interagir entre si e com fatores hormonais, imunológicos e ambientais.
Isso não significa que exista um gene único da endometriose ou que a presença de familiares afetados determine o desenvolvimento da doença. Predisposição não é destino, e os testes genéticos disponíveis não constituem, por si só, uma forma consolidada de diagnosticar ou prever a evolução individual.
O estrogênio também tem papel relevante em muitos processos relacionados à endometriose. A literatura descreve interações entre exposição hormonal, inflamação, sobrevivência celular e remodelamento dos tecidos. Ainda assim, a relação não é linear nem suficiente para explicar todas as manifestações clínicas.
A influência de fatores ambientais continua sendo investigada. Resultados de estudos podem variar conforme população, definição de exposição, método de pesquisa e características genéticas. Por isso, não há base para transformar hipóteses ambientais em recomendações universais ou em explicações para o caso de uma pessoa.
Inflamação e sintomas: quais associações são descritas?
A endometriose pode estar associada a dor pélvica, dor relacionada à menstruação ou à atividade sexual, sintomas intestinais ou urinários, fadiga, dificuldade para engravidar e impacto emocional e social. Algumas pessoas apresentam poucos sintomas ou nenhum sintoma.
A inflamação pode participar desses sintomas por diferentes caminhos, como:
- irritação de estruturas próximas às lesões;
- liberação de mediadores que sensibilizam terminações nervosas;
- formação de aderências e fibrose;
- alteração da mobilidade ou da relação entre órgãos pélvicos;
- interação com mecanismos de processamento da dor.
Essas associações não funcionam como uma lista diagnóstica. Sintomas semelhantes podem ocorrer em outras condições, e a intensidade da dor não permite inferir isoladamente a extensão anatômica da endometriose.
Quando a doença envolve órgãos próximos, podem aparecer manifestações relacionadas ao intestino ou ao trato urinário. A avaliação profissional pode ser necessária diante de sintomas intensos, persistentes, progressivos ou acompanhados de sinais gerais importantes, como desmaio, sangramento volumoso, febre ou dor súbita muito intensa. Esses sinais não determinam uma causa específica, mas podem exigir análise sem demora.
Inflamação e recorrência: o que se sabe?
A recorrência pode significar coisas diferentes: retorno de sintomas, reaparecimento de lesões em exames ou nova identificação de doença. Esses eventos não são equivalentes e não devem ser convertidos em uma única taxa aplicável a todas as pessoas.
Revisões sistemáticas descrevem que sintomas ou lesões podem reaparecer após intervenções, especialmente em acompanhamentos mais longos. Os resultados variam conforme a forma da endometriose, a técnica utilizada, o tratamento complementar, a definição de recorrência e o tempo de observação.
A inflamação pode fazer parte dos mecanismos associados à persistência ou ao reaparecimento da doença, mas não é possível usar esse conceito para prever a evolução individual. Também não se deve concluir que toda endometriose progride continuamente. Algumas lesões podem permanecer estáveis, tornar-se sintomáticas, apresentar mudanças ou, em determinadas situações, não ser mais identificadas; os padrões são variáveis.
A melhora dos sintomas também não prova necessariamente que todas as lesões desapareceram. Da mesma forma, a presença de uma alteração em exame não define, sozinha, a necessidade de cirurgia ou qualquer outra conduta.
Endometriose e câncer: por que a inflamação não deve gerar alarmismo?
Endometriose e câncer são condições biologicamente distintas. Algumas revisões epidemiológicas identificaram associação entre endometriose e maior risco relativo de determinados tipos de câncer de ovário, especialmente os subtipos endometrioide e de células claras.
Essa associação não significa que a endometriose se transforme habitualmente em câncer. Também não equivale a dizer que o risco absoluto seja alto para cada pessoa. Estudos observacionais podem sofrer influência de idade, subtipo de endometriose, endometrioma, tratamentos, fatores reprodutivos, seleção das participantes e maior frequência de acompanhamento médico.
A existência de uma associação estatística não demonstra, por si só, causalidade. As evidências disponíveis não sustentam rastreamento oncológico universal exclusivamente pela presença de endometriose. A análise de sintomas, achados clínicos, exames e outros fatores de risco deve ser individualizada por profissional habilitado.
O que a ciência ainda não consegue responder?
Apesar dos avanços, permanecem limitações importantes:
- não existe uma explicação única para a origem de todos os casos;
- ainda não está definido se a inflamação inicia o processo, resulta da presença das lesões ou participa de um ciclo bidirecional;
- biomarcadores em sangue, saliva, fluido menstrual ou outros tecidos continuam em investigação e não substituem a avaliação clínica e os exames de imagem quando indicados;
- alterações imunológicas encontradas em laboratório ainda não orientam isoladamente decisões clínicas;
- não há um teste genético consolidado para diagnosticar ou prever a trajetória individual;
- não existe uma classificação única capaz de representar simultaneamente anatomia, dor, fertilidade, função dos órgãos e qualidade de vida;
- estudos sobre recorrência, câncer e progressão usam populações e definições diferentes, o que limita comparações diretas.
Reconhecer essas incertezas não diminui a importância do conhecimento disponível. Ao contrário, ajuda a evitar explicações simplistas, promessas de cura e interpretações que ultrapassem o que os estudos realmente demonstram.
Como esse conhecimento é usado no cuidado?
A compreensão da inflamação ajuda a explicar a natureza crônica e multifatorial da endometriose, mas não determina uma conduta individual. Diagnóstico e tratamento dependem de avaliação clínica, exames quando apropriados, localização e extensão suspeitas ou identificadas, sintomas, objetivos reprodutivos, riscos e preferências.
No Brasil, o PCDT vigente do Ministério da Saúde organiza aspectos do cuidado no SUS. A diretriz da ESHRE também reforça a necessidade de considerar diferentes dimensões da doença, em vez de reduzir a avaliação a um único exame, sintoma ou estágio anatômico.
Informações sobre investigação diagnóstica, opções terapêuticas e acompanhamento devem ser consultadas em páginas específicas e discutidas com profissional de saúde habilitado. A inflamação é uma peça importante do modelo científico atual, não uma explicação completa nem um alvo que possa ser interpretado de forma isolada.
Em resumo
A ciência sustenta que a endometriose está associada a um ambiente de inflamação crônica, influência hormonal, alterações imunológicas, fibrose e remodelamento dos tecidos. Esses mecanismos podem contribuir para dor e outras manifestações, mas não explicam sozinhos a origem, a intensidade dos sintomas ou a evolução da doença.
A hipótese mais aceita é multifatorial. Menstruação retrógrada, genética, hormônios, imunidade, características celulares e ambiente podem participar em combinações diferentes. A condição não deve ser apresentada como doença autoimune comprovada, como consequência de um único gene ou como uma doença que inevitavelmente piora.
O principal consenso é também um limite: a avaliação precisa ser multidimensional e individualizada. O que a literatura mostra em grupos de estudo não permite diagnosticar, prever ou definir a melhor conduta para uma pessoa específica.