A síndrome do intestino irritável (SII) e a endometriose são condições diferentes, mas podem compartilhar sintomas como dor abdominal ou pélvica, distensão, alterações no hábito intestinal e piora relacionada ao ciclo menstrual. A literatura também descreve maior frequência de SII em estudos com pessoas com endometriose. Isso não significa que uma condição cause necessariamente a outra, nem que sintomas intestinais confirmem endometriose.
A adenomiose acrescenta outra possibilidade à conversa. Ela também é diferente da endometriose e da SII, embora possa coexistir com a endometriose e contribuir para dor pélvica ou sangramento uterino aumentado. A relação específica entre adenomiose e SII é menos estudada do que a relação entre endometriose e SII. Por isso, não é adequado transferir automaticamente conclusões de uma associação para a outra.
Três condições, três conceitos
O que é a síndrome do intestino irritável
A SII é uma condição relacionada à interação entre o intestino e o sistema nervoso, na qual sintomas gastrointestinais persistentes podem ocorrer sem que isso signifique, por si só, a presença de uma lesão estrutural específica no intestino. Entre as manifestações descritas nos estudos estão dor abdominal, distensão e mudanças na frequência ou na consistência das evacuações, com períodos de constipação, diarreia ou alternância entre os dois.
A forma como esses sintomas se apresentam pode variar bastante. Fatores relacionados ao ciclo menstrual, ao estresse, ao sono e a outras condições de saúde podem influenciar a percepção e a intensidade dos sintomas. Essa variabilidade é uma das razões pelas quais a avaliação clínica não deve se basear em um sintoma isolado.
O que é a endometriose
A endometriose é uma doença ginecológica crônica na qual tecido semelhante ao endométrio — o tecido que reveste internamente o útero — é encontrado fora da cavidade uterina. Pode envolver estruturas pélvicas e, em alguns casos, regiões próximas ao intestino ou ao trato urinário.
A endometriose pode estar associada a cólicas menstruais, dor pélvica, dor durante a relação sexual, dor ao evacuar ou urinar em determinados períodos, sintomas intestinais ou urinários e dificuldade para engravidar. Nem todas as pessoas apresentam o mesmo conjunto de manifestações, e a intensidade da dor não permite deduzir sozinha a extensão da doença.
O que é a adenomiose
Na adenomiose, glândulas e/ou estroma semelhantes ao endométrio estão presentes no miométrio, a camada muscular do útero, geralmente acompanhados por alterações desse músculo. Portanto, a localização do tecido é o principal elemento que diferencia conceitualmente a adenomiose da endometriose: na primeira, a alteração está dentro da parede muscular uterina; na segunda, está fora da cavidade uterina, em localizações diversas.
Adenomiose e endometriose não são sinônimos nem devem ser apresentadas simplesmente como formas da mesma doença. Ao mesmo tempo, as duas podem coexistir, assim como podem coexistir com miomas. A adenomiose é frequentemente associada a sangramento uterino aumentado, cólicas menstruais intensas, dor pélvica e dor na relação sexual, mas esses sintomas também podem ocorrer em outras condições.
Por que os sintomas podem se sobrepor?
A sobreposição acontece porque dor pélvica e sintomas intestinais não pertencem exclusivamente a uma única doença. A pelve reúne órgãos próximos, com redes nervosas e mecanismos inflamatórios que podem influenciar a percepção da dor. Além disso, alterações no funcionamento intestinal podem acompanhar doenças ginecológicas, e uma pessoa pode apresentar mais de uma condição ao mesmo tempo.
Nos estudos sobre endometriose e SII, são descritos pontos de contato como:
- dor abdominal ou pélvica;
- distensão abdominal;
- constipação, diarreia ou alternância entre padrões intestinais;
- dor relacionada à evacuação;
- piora ou variação dos sintomas ao longo do ciclo menstrual;
- impacto na rotina, no sono, na alimentação e na qualidade de vida.
Essas características ajudam a explicar a confusão, mas não funcionam como um método para identificar a causa dos sintomas em uma pessoa específica. Dor ao evacuar, por exemplo, pode aparecer em contextos ginecológicos, intestinais ou mistos. Da mesma forma, a piora durante a menstruação pode ocorrer em endometriose, mas não é exclusiva dela.
O que os estudos dizem sobre endometriose e SII?
Uma revisão sistemática com meta-análises publicada em 2022 observou maior frequência de SII entre pessoas com endometriose nos estudos avaliados. Os autores destacam a sobreposição de dor pélvica, distensão e alterações intestinais, além da importância de considerar a possibilidade de coexistência.
Esse tipo de resultado é uma associação epidemiológica. Ele mostra que as duas condições aparecem juntas mais frequentemente em determinadas populações estudadas, mas não demonstra que a endometriose provoque SII ou que a SII provoque endometriose. Também não permite calcular o risco individual de uma pessoa.
Há limitações relevantes: os estudos utilizaram critérios diagnósticos variados, reuniram populações diferentes e podem ter incluído pessoas encaminhadas justamente por apresentarem sintomas mais complexos. A prevalência observada em serviços especializados, portanto, não deve ser generalizada para toda a população.
Outro limite importante é que a maior parte das evidências do dossiê se concentra na associação entre endometriose e SII. Há menos dados específicos sobre adenomiose e SII. Assim, sintomas intestinais em alguém com adenomiose não devem ser automaticamente atribuídos à adenomiose, à endometriose ou à SII sem uma avaliação que considere o conjunto do quadro.
Diferenças que ajudam a organizar a informação — sem servir para autodiagnóstico
A SII é definida por sintomas e pelo padrão de funcionamento intestinal, dentro de uma avaliação clínica que também considera outras possibilidades. A endometriose é uma doença ginecológica caracterizada pela presença de tecido semelhante ao endométrio fora da cavidade uterina. A adenomiose envolve a parede muscular do útero.
Em termos gerais, alguns aspectos costumam orientar a investigação profissional:
- sintomas predominantemente intestinais podem direcionar a atenção para o trato gastrointestinal, mas não excluem uma condição ginecológica;
- sintomas claramente relacionados à menstruação podem ocorrer na endometriose, na adenomiose e em outras causas de dor pélvica;
- sangramento uterino aumentado é mais característico do contexto uterino, como adenomiose, embora também tenha várias outras causas;
- dor durante a evacuação pode estar associada à endometriose, mas também pode ocorrer em doenças intestinais e em outros contextos;
- alterações intestinais sem lesão estrutural identificada podem ocorrer na SII, mas a ausência de uma lesão não deve ser presumida apenas pelos sintomas.
Nenhuma dessas diferenças, isoladamente, confirma ou exclui uma condição. Mesmo a presença de uma doença já reconhecida não explica necessariamente todos os sintomas existentes.
Como a avaliação costuma separar as possibilidades?
A investigação profissional tende a integrar história clínica, exame físico quando indicado e exames selecionados conforme a hipótese levantada. O objetivo não é apenas procurar endometriose ou adenomiose, mas também considerar causas intestinais, urinárias, ginecológicas e outras condições que podem produzir manifestações semelhantes.
Quando existe suspeita de endometriose, a avaliação pode envolver exame de imagem ginecológico e, em situações específicas, outros recursos. A Organização Mundial da Saúde e a diretriz da ESHRE ressaltam que a investigação e o cuidado devem ser individualizados. O PCDT brasileiro da endometriose orienta o cuidado dessa doença no SUS, mas não constitui um protocolo específico para SII ou adenomiose.
No caso da adenomiose, a ultrassonografia transvaginal realizada com conhecimento dos critérios de avaliação morfológica do útero, conhecidos como MUSA, é frequentemente utilizada na investigação. A ressonância magnética pode complementar a avaliação quando há dúvida, anatomia complexa, suspeita de condições associadas ou necessidade de melhor mapeamento. A escolha e a interpretação desses exames dependem do contexto clínico, da qualidade técnica e da experiência do profissional.
Um achado de imagem não deve ser tratado como explicação automática para todos os sintomas. Os critérios de imagem ainda apresentam variações entre estudos e serviços, e a relação entre determinados sinais e a intensidade da dor não está completamente estabelecida. A confirmação histológica, por sua vez, é uma referência importante, mas geralmente só está disponível quando há material cirúrgico; ela não é um requisito universal antes de toda avaliação ou cuidado.
Pode haver mais de uma condição ao mesmo tempo?
Sim. Endometriose, adenomiose, miomas e SII podem coexistir. A presença de uma delas não exclui as demais. Essa possibilidade é especialmente importante quando os sintomas persistem, mudam de padrão ou não são explicados adequadamente por uma única hipótese.
A coexistência, entretanto, não deve ser presumida. Estudos sobre endometriose e adenomiose em populações com subfertilidade, por exemplo, mostram que as estimativas variam conforme o método de diagnóstico, a população analisada e a presença de outras condições. Isso dificulta separar o efeito de cada doença sobre dor, sangramento, fertilidade ou resultados obstétricos.
A literatura também descreve associações entre adenomiose e alguns desfechos reprodutivos ou obstétricos. Porém, para diversos resultados, a certeza da evidência é baixa ou muito baixa, e há possíveis fatores de confusão, como idade, endometriose, miomas e reprodução assistida. Esses dados não determinam o que ocorrerá em uma gravidez individual.
Quando uma avaliação profissional pode ser necessária?
Sintomas intestinais ou pélvicos persistentes, recorrentes ou com impacto significativo na vida cotidiana podem justificar uma avaliação profissional. A necessidade de atenção também pode ser maior diante de sangramento uterino muito intenso, sinais compatíveis com anemia, dor incapacitante, perda de peso não intencional, sangue nas fezes, febre, vômitos persistentes ou possibilidade de gravidez associada a dor ou sangramento.
Esses sinais não permitem concluir a causa do problema. Eles apenas indicam que uma avaliação em tempo adequado pode ser necessária, sobretudo quando há intensidade importante, piora rápida ou alteração relevante do estado geral.
O que levar desta comparação?
A principal mensagem é que sintomas intestinais e pélvicos podem ter origens diferentes e também podem coexistir. A associação entre endometriose e SII é descrita em estudos, mas não transforma uma condição na outra. A adenomiose é uma condição uterina distinta, com evidências específicas e limitações próprias.
Distinguir os conceitos ajuda a evitar dois erros opostos: atribuir todo sintoma intestinal à endometriose ou presumir que toda dor relacionada ao ciclo seja apenas um problema intestinal. A avaliação profissional é individualizada e pode exigir a consideração simultânea de condições ginecológicas e gastrointestinais.