A chamada “endometriose das trompas” não corresponde, necessariamente, a um tipo separado e universalmente definido de endometriose. Em geral, a expressão é usada para descrever a presença de lesões, aderências ou alterações anatômicas na região das tubas uterinas — também chamadas trompas de Falópio — ou o envolvimento dessas estruturas por uma doença pélvica mais extensa.
As tubas são estruturas finas que conectam as regiões laterais do útero às proximidades dos ovários. Suas extremidades, chamadas fímbrias, ficam próximas ao ovário e participam da captação do óvulo. Por isso, alterações ao redor das tubas, como aderências — faixas de tecido cicatricial que podem limitar o movimento normal dos órgãos — podem modificar a anatomia da pelve. Isso, porém, não permite concluir a causa de um sintoma nem prever o impacto sobre a fertilidade de uma pessoa.
A literatura costuma organizar a endometriose em três fenótipos clínico-anatômicos principais: superficial peritoneal, ovariana e profunda. Essa divisão é útil para descrever padrões da doença, mas é uma simplificação. Ela não significa que existam apenas três tipos, nem traduz sozinha a intensidade da dor, o prognóstico ou a necessidade de tratamento.
Onde as trompas se encaixam na classificação da endometriose
A endometriose superficial peritoneal envolve o peritônio, uma membrana que reveste parte da cavidade pélvica e abdominal. Lesões próximas às tubas podem coexistir com alterações em outras áreas, como ovários, ligamentos uterossacros, região posterior do útero ou intestino.
A endometriose ovariana inclui o endometrioma, um cisto associado à endometriose no ovário. Como ovários e tubas ficam anatomicamente próximos, aderências e distorções da pelve podem envolver o conjunto formado pelo útero, pelas tubas e pelos ovários. Ainda assim, uma alteração próxima à tuba não é automaticamente uma lesão localizada dentro da própria tuba.
A endometriose profunda é caracterizada pelo comprometimento de estruturas pélvicas por lesões que se estendem para além da superfície do peritônio. Pode envolver, entre outras regiões, a área atrás do colo do útero, os ligamentos uterossacros, a vagina, o intestino, a bexiga e os ureteres. A tuba pode estar próxima de áreas afetadas ou participar de um quadro de aderências e distorção anatômica, mas a descrição precisa depende do local, da profundidade e da extensão observados.
Não existe uma fronteira anatômica única que explique todos os casos chamados de “endometriose das trompas”. Além disso, os sistemas de classificação disponíveis têm finalidades diferentes. Alguns descrevem a extensão de lesões observadas em cirurgia; outros organizam a localização da doença profunda ou os achados de exames de imagem. Nenhum estágio ou escore, isoladamente, representa de forma completa dor, fertilidade, função dos órgãos e qualidade de vida.
O que a endometriose pode alterar nessa região
A endometriose pode estar associada a inflamação, fibrose e aderências. Na região anexial — termo que se refere ao conjunto formado principalmente por ovários e tubas — essas alterações podem reduzir a mobilidade dos órgãos e modificar suas relações anatômicas.
Quando há comprometimento tubário ou aderências ao redor das tubas, a passagem e a relação espacial entre ovário, tuba e útero podem ser afetadas. A literatura descreve uma possível associação entre endometriose e dificuldade para engravidar, mas essa associação é multifatorial. Ela pode envolver inflamação pélvica, alterações ovarianas, aderências, idade, reserva ovariana, outros fatores reprodutivos e fatores relacionados ao parceiro ou à parceira.
Por esse motivo, a presença de endometriose perto das trompas não permite deduzir, por si só, se haverá infertilidade, obstrução tubária ou necessidade de algum procedimento. Da mesma forma, a ausência de uma alteração visível nas tubas não exclui outros fatores que possam influenciar a reprodução.
É importante diferenciar aderência, lesão superficial e obstrução. Uma aderência pode alterar o movimento dos órgãos sem representar uma obstrução completa. Uma imagem sugestiva de alteração tubária também precisa ser interpretada no contexto anatômico e clínico. Exames e classificações não substituem essa correlação.
Quais manifestações podem aparecer
As manifestações da endometriose variam amplamente. Algumas pessoas apresentam dor pélvica, cólicas menstruais intensas, dor durante ou após a relação sexual, dor ao evacuar ou sintomas urinários com possível variação ao longo do ciclo menstrual. Outras podem ter poucos sintomas ou nenhum sintoma evidente.
Quando a doença envolve a região das tubas, os sintomas não costumam ser específicos o bastante para identificar essa localização. Dor em um dos lados da pelve, por exemplo, pode estar relacionada a diversas estruturas e condições, e não permite concluir que exista endometriose tubária. A intensidade da dor também não acompanha de maneira confiável a extensão anatômica da doença.
Sintomas intestinais ou urinários cíclicos podem ocorrer quando há comprometimento de estruturas próximas, como o intestino, a bexiga ou os ureteres. Eles não devem ser interpretados como prova de que as trompas estejam envolvidas. Da mesma forma, alterações do ciclo menstrual, dor pélvica ou dificuldade para engravidar têm múltiplas causas possíveis.
Em situações de doença mais extensa, podem existir alterações anatômicas identificadas em exames de imagem ou durante procedimentos. Mesmo nesses casos, o achado precisa ser descrito com precisão: localização, profundidade, aderências, relação com os ovários e o útero, além de eventual comprometimento de outros órgãos.
Como a região pode ser avaliada
A avaliação da endometriose pélvica combina história clínica, exame físico quando apropriado e exames de imagem selecionados conforme a pergunta anatômica. A ultrassonografia transvaginal especializada pode contribuir para examinar os compartimentos pélvicos, identificar endometriomas, observar sinais de aderências e mapear algumas formas de doença profunda.
A ressonância magnética pode oferecer informações adicionais sobre a distribuição da doença profunda e sua relação com estruturas pélvicas. O desempenho de ambos os métodos depende do equipamento, do protocolo, da experiência da equipe e das características da lesão. A interpretação de um exame não deve ser feita isoladamente.
Um resultado sem alterações evidentes não exclui completamente lesões superficiais, pequenas alterações ou determinadas localizações. Por outro lado, a identificação de uma imagem sugestiva não determina, por si só, a gravidade clínica ou a necessidade de cirurgia.
Em alguns contextos, exames específicos podem ser considerados para investigar a permeabilidade das tubas. A escolha do método depende da pergunta clínica e da avaliação individualizada. Não existe um exame único capaz de responder a todas as questões sobre endometriose, anatomia pélvica e fertilidade.
O diagnóstico pode ser organizado de maneira não cirúrgica em muitos casos, com base na avaliação clínica e nos exames de imagem. A laparoscopia não é obrigatória para iniciar uma investigação em todas as pessoas. Quando um procedimento é considerado, sua finalidade, seus possíveis benefícios e riscos dependem do quadro anatômico e clínico.
Endometriose das trompas e fertilidade: o que é possível afirmar
A endometriose está associada, em estudos populacionais, a dificuldades reprodutivas em parte das pessoas afetadas. Entretanto, não é possível transformar essa associação em uma previsão individual. Nem toda pessoa com endometriose próxima às tubas terá obstrução, infertilidade ou redução da chance de gestação.
A análise reprodutiva pode levar em conta diversos elementos, como idade, histórico ginecológico, anatomia das tubas e dos ovários, presença de endometrioma, reserva ovariana, função espermática quando aplicável e planos reprodutivos. A localização anatômica é apenas uma parte dessa avaliação.
Também há incertezas sobre o equilíbrio entre possíveis benefícios e riscos de intervenções em determinadas situações, especialmente quando a doença envolve o ovário ou quando há preocupação com a reserva ovariana. Por isso, a existência de uma lesão ou aderência não deve ser apresentada como indicação automática de cirurgia.
Tratamento: por que o tipo anatômico não decide sozinho
O tratamento da endometriose é individualizado. A decisão pode considerar dor, impacto sobre atividades e relações, função intestinal ou urinária, extensão e localização da doença, planos reprodutivos, idade, tratamentos prévios, riscos e preferências da pessoa.
De modo geral, o cuidado pode envolver acompanhamento clínico, opções medicamentosas, estratégias para controle da dor e, em situações selecionadas, avaliação cirúrgica. A escolha não deve ser feita apenas pelo nome da localização — “nas trompas”, “no ovário” ou “profunda”.
Quando há doença profunda ou suspeita de comprometimento intestinal, urinário ou de estruturas que exigem planejamento específico, recomendações de sociedades científicas destacam a importância de mapear a extensão anatômica e, quando necessário, integrar profissionais de diferentes áreas. Isso não significa que toda doença profunda precise de cirurgia.
A cirurgia pode ter riscos, incluindo formação de novas aderências e impacto sobre estruturas reprodutivas ou órgãos próximos. A literatura também não sustenta a ideia de cura definitiva garantida: a endometriose é uma doença crônica, que pode persistir ou voltar após intervenções. Benefícios, limitações, riscos e alternativas precisam ser discutidos em atendimento profissional.
Quando a avaliação profissional pode ser necessária
Dor pélvica persistente ou incapacitante, sintomas que se repetem de forma cíclica, dificuldade para engravidar, alterações urinárias ou intestinais recorrentes e achados de imagem que indiquem possível comprometimento de órgãos são situações que podem justificar avaliação profissional. Esses sinais não confirmam endometriose e também podem ocorrer em outras condições.
Dor abdominal ou pélvica súbita e muito intensa, desmaio, sangramento importante, febre, falta de ar ou dor no peito são manifestações gerais que podem exigir atendimento com maior urgência, independentemente da hipótese considerada. A endometriose não deve ser presumida como explicação única para sintomas agudos.
Limitações do conhecimento atual
A expressão “endometriose das trompas” é menos padronizada do que termos como endometriose superficial, ovariana ou profunda. A literatura apresenta mais dados sobre endometriose pélvica e doença profunda em geral do que sobre lesões tubárias isoladas.
Além disso, estudos de localizações incomuns frequentemente são compostos por relatos de caso, séries retrospectivas e populações selecionadas. Esse tipo de evidência é útil para reconhecer possibilidades anatômicas, mas não permite estimar com precisão a frequência na população nem estabelecer uma conduta única.
A relação entre a localização da doença e os sintomas também não é absoluta. A anatomia ajuda a organizar a investigação, mas não substitui a correlação clínica. Em termos práticos, “endometriose das trompas” deve ser entendida como uma descrição que exige esclarecimento anatômico, e não como uma conclusão baseada apenas na localização da dor ou em um único exame.