Início › Sistema urinário › O papel do urologista no cuidado multidisciplinar da endometriose
Sistema urinário · conteúdo informativo

O papel do urologista no cuidado multidisciplinar da endometriose

Sintomas urinários podem ter diferentes causas. Quando existe suspeita de comprometimento da bexiga ou dos ureteres, a participação da urologia pode ajudar a esclarecer o quadro, avaliar riscos e integrar o planejamento do cuidado.

Limite deste conteúdo: Este conteúdo é exclusivamente informativo e educacional. Não substitui consulta, avaliação individual, diagnóstico ou tratamento realizado por profissional habilitado. Sintomas, sinais ou resultados de exames não permitem autodiagnóstico. A definição diagnóstica e a interpretação do conjunto clínico devem ser realizadas por profissional de saúde habilitado, dentro de sua competência.

A presença de sintomas urinários não significa, por si só, que exista endometriose no trato urinário. Ardor ao urinar, urgência, aumento da frequência urinária, dor pélvica ou sangue na urina podem estar associados a diversas condições. Por isso, quando há suspeita de envolvimento da bexiga ou dos ureteres — os tubos que conduzem a urina dos rins até a bexiga — o urologista pode integrar a avaliação com ginecologia, radiologia e outras áreas.

O objetivo dessa participação não é atribuir automaticamente os sintomas à endometriose, mas investigar o sistema urinário, reconhecer situações que exigem atenção e contribuir para uma visão mais completa da doença. A decisão sobre exames, acompanhamento ou tratamento é individualizada conforme a história clínica, os achados de imagem, a localização da doença, a função renal, os sintomas e as preferências da pessoa.

O que é o envolvimento urinário na endometriose

A endometriose é uma doença crônica na qual tecido semelhante ao endométrio — o tecido que reveste internamente o útero — aparece fora da cavidade uterina. A doença pode atingir diferentes estruturas da pelve. O trato urinário é uma localização menos frequente, geralmente relacionada à endometriose profunda, e a bexiga é descrita como o local mais frequentemente envolvido, seguida pelos ureteres.

Na bexiga, as alterações podem estar próximas à região situada entre o útero e a bexiga. Nos ureteres, podem ocorrer alterações ao redor ou na parede desses canais. Em algumas situações, esse comprometimento pode dificultar a passagem da urina. A obstrução pode levar à dilatação do ureter e do sistema coletor do rim, situação chamada hidroureteronefrose. Esse processo pode ser pouco sintomático e, quando persistente, afetar a função renal.

Isso não significa que toda pessoa com endometriose tenha risco de perda renal ou precise de avaliação urológica. O risco depende da localização, da extensão e da relação da doença com as estruturas urinárias, além de outros dados clínicos e radiológicos.

Quais sintomas podem aparecer?

A literatura descreve diferentes apresentações, e algumas pessoas podem não apresentar sintomas urinários claros. Entre as manifestações possíveis estão:

  • dor ou ardor ao urinar, chamada disúria;
  • urgência urinária, isto é, necessidade súbita de urinar;
  • aumento da frequência urinária;
  • dor na região suprapúbica, localizada abaixo do abdome, ou dor pélvica;
  • dificuldade para esvaziar a bexiga;
  • dor lombar, especialmente quando há possível envolvimento ureteral;
  • hematúria, termo usado para sangue na urina, visível ou identificado em exame.

A relação dos sintomas com o período menstrual pode aumentar a suspeita de uma associação com a endometriose, mas sua ausência não exclui essa possibilidade. Da mesma forma, dor ao urinar durante a menstruação não confirma endometriose urinária.

A hematúria visível durante o ciclo menstrual pode ser sugestiva de comprometimento vesical em determinados contextos, mas é incomum, não é necessária para considerar a hipótese e não confirma o diagnóstico. Sangue na urina também pode ocorrer em infecções, cálculos, doenças dos rins, alterações da próstata ou da bexiga e outras condições. Além disso, sangue vaginal ou menstrual pode contaminar uma amostra, tornando importante esclarecer a origem do sangramento por avaliação adequada.

Por que o urologista pode participar do cuidado?

O urologista é o profissional médico especializado no sistema urinário e em aspectos do aparelho reprodutor masculino. No contexto da endometriose, sua atuação pode se concentrar em algumas frentes.

Avaliação dos sintomas urinários

A história clínica ajuda a caracterizar quando os sintomas começaram, se são contínuos ou cíclicos, se existe relação com a menstruação e se há episódios recorrentes. Também pode ser relevante diferenciar dor pélvica de sintomas mais diretamente relacionados ao ato de urinar.

Essa análise não substitui a investigação de outras causas. Sintomas como disúria, urgência e aumento da frequência podem ocorrer em infecção urinária, síndrome da bexiga dolorosa ou cistite intersticial, bexiga hiperativa, cálculos, disfunções do assoalho pélvico e outras condições. A associação entre endometriose e sintomas urinários, portanto, não demonstra necessariamente que a doença tenha atingido a bexiga ou os ureteres.

Investigação de sangue na urina

A hematúria precisa ser interpretada com cautela. A diretriz da American Urological Association e da Society of Urodynamics, Female Pelvic Medicine & Urogenital Reconstruction destaca que sua investigação depende de características como persistência, idade, fatores de risco e contexto clínico. Atribuir o achado automaticamente à endometriose pode atrasar a identificação de outras causas.

Quando há sintomas compatíveis com infecção urinária, a avaliação pode considerar essa possibilidade. Febre, calafrios, dor lombar, mal-estar importante, vômitos ou piora do estado geral podem acompanhar infecções mais extensas ou outras situações que requerem avaliação profissional rápida. Esses sinais não permitem concluir sozinhos qual é a causa.

Avaliação dos ureteres e da função renal

O envolvimento ureteral pode ser assintomático ou apresentar sintomas inespecíficos. Por isso, em determinados contextos, a avaliação urológica considera não apenas a dor ou as alterações urinárias, mas também se existe dilatação das vias urinárias e se a drenagem dos rins está preservada.

A literatura sobre endometriose ureteral é formada em grande parte por estudos retrospectivos, séries de casos e relatos, o que limita a definição de uma estratégia única para todas as pessoas. Ainda assim, as revisões descrevem a possibilidade de obstrução silenciosa e ressaltam a importância de reconhecer alterações que possam comprometer o rim ao longo do tempo.

Participação no planejamento de procedimentos

Quando a doença está próxima da bexiga ou dos ureteres e existe possibilidade de procedimento cirúrgico, a participação do urologista pode ajudar a mapear a anatomia, discutir riscos urinários e planejar a atuação conjunta com a equipe ginecológica. Isso é especialmente relevante quando os exames sugerem doença profunda, obstrução, hidroureteronefrose ou proximidade com estruturas urinárias.

A presença do urologista não significa que uma cirurgia esteja indicada. A decisão depende da avaliação individualizada e pode envolver diferentes estratégias conforme sintomas, extensão e localização da doença, função renal, desejo reprodutivo, riscos, efeitos adversos e preferências. Não há uma técnica cirúrgica universal para o comprometimento ureteral: as possibilidades variam conforme o tipo de lesão, sua extensão, o grau de obstrução e a experiência da equipe.

Acompanhamento após intervenções ou durante o cuidado

Em situações selecionadas, a urologia também pode acompanhar a evolução de sintomas, alterações anatômicas, função renal ou possíveis consequências urinárias de uma intervenção. O tipo e a frequência desse acompanhamento não são iguais para todas as pessoas e dependem do problema identificado.

Como os exames de imagem contribuem

A ultrassonografia transvaginal especializada e a ressonância magnética são ferramentas importantes para o mapeamento da endometriose profunda. O consenso internacional de 2024 recomenda uma avaliação dirigida dos compartimentos pélvicos, incluindo a região anterior, onde estão a bexiga e áreas próximas aos ureteres. Um consenso radiológico de 2025 também propõe uma descrição mais sistemática da pelve por compartimentos, favorecendo a comunicação entre radiologia, ginecologia e urologia.

A ultrassonografia transvaginal especializada não deve ser confundida com qualquer ultrassonografia pélvica de rotina. Seu desempenho depende do protocolo, da experiência do examinador, do equipamento e da pergunta clínica. A ressonância pode complementar essa avaliação em determinadas circunstâncias, sobretudo quando é necessário detalhar a extensão da doença ou planejar uma intervenção.

Nenhum exame é infalível. Os resultados de acurácia variam entre estudos e serviços, e um resultado negativo não exclui necessariamente doença, especialmente quando a técnica, a localização da lesão ou a experiência do serviço diferem. A escolha e a interpretação dos exames precisam ser integradas à avaliação clínica; esta página não indica qual exame seria apropriado para uma situação individual.

A cistoscopia — exame que permite observar o interior da bexiga com um instrumento próprio — pode ter utilidade em contextos específicos, como a investigação de determinadas alterações da bexiga ou o planejamento de procedimentos. Seu uso não é automático para toda pessoa com endometriose ou com sintomas urinários.

O que significa uma abordagem multidisciplinar

O cuidado multidisciplinar reúne diferentes conhecimentos para analisar aspectos que podem se sobrepor. Na endometriose com possível envolvimento urinário, a equipe pode incluir:

  • ginecologia, para avaliar a endometriose pélvica e seus impactos;
  • urologia, para investigar bexiga, ureteres, hematúria e função urinária;
  • radiologia, especialmente profissionais com experiência em mapeamento de endometriose profunda;
  • nefrologia, quando existem questões específicas relacionadas à função dos rins;
  • fisioterapia pélvica, psicologia, enfermagem ou outras áreas, conforme as necessidades identificadas.

A composição da equipe varia conforme os achados e a organização do serviço. Multidisciplinaridade não significa que todas as pessoas precisarão consultar todos esses profissionais. Significa que as decisões podem ser discutidas entre áreas quando a complexidade do caso torna essa integração útil.

O Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas do Ministério da Saúde enfatiza a individualização do cuidado e o encaminhamento para serviços especializados quando indicado. A diretriz da ESHRE também destaca a decisão compartilhada, considerando sintomas, fertilidade, riscos, efeitos adversos e preferências, sem exigir confirmação por laparoscopia antes de qualquer abordagem em todas as situações.

Quando a avaliação profissional merece atenção rápida

Sangue visível na urina, febre ou calafrios associados a sintomas urinários, dor lombar intensa, vômitos persistentes, redução importante do volume urinário ou piora relevante do estado geral são sinais que podem exigir avaliação profissional rápida. Eles não definem endometriose e podem estar relacionados a infecção, obstrução, cálculo ou outras condições.

A intensidade do sintoma também não é uma medida confiável da gravidade anatômica. A endometriose ureteral, por exemplo, pode evoluir com poucos sintomas. Por outro lado, sintomas intensos podem ocorrer sem que exista lesão urinária causada pela endometriose. Essa é uma das razões pelas quais a avaliação deve evitar tanto o alarmismo quanto a minimização.

Limitações das evidências

A literatura sobre endometriose do trato urinário ainda apresenta limitações importantes. Muitos estudos vêm de centros especializados, incluem amostras pequenas e retrospectivas e usam critérios diferentes para definir doença, obstrução e resultados. A acurácia da ultrassonografia e da ressonância depende do examinador, do protocolo, do equipamento e da localização da lesão.

Também permanecem dúvidas sobre a melhor sequência de exames para todos os casos, sobre o benefício de determinadas intervenções quando não há obstrução evidente e sobre os resultados de longo prazo para sintomas, função renal e recorrência. As opções de tratamento, quando necessárias, não podem ser apresentadas como uma receita única. A decisão é construída caso a caso, em diálogo com profissionais habilitados.

Em resumo

O urologista pode ter um papel relevante quando há sintomas urinários, sangue na urina, suspeita de comprometimento da bexiga ou dos ureteres, alterações de drenagem urinária ou necessidade de planejamento próximo ao trato urinário. Sua atuação se soma — e não substitui — a avaliação ginecológica e a interpretação especializada dos exames.

A presença de sintomas urinários não confirma endometriose urinária, assim como a ausência deles não exclui completamente alterações nos ureteres. Uma abordagem integrada ajuda a considerar diagnósticos diferenciais, avaliar possíveis riscos e evitar que uma hipótese seja tratada como certeza antes da investigação adequada.

Importante: Este conteúdo é exclusivamente informativo e educacional. Não substitui consulta, avaliação individual, diagnóstico ou tratamento realizado por profissional habilitado. Sintomas, sinais ou resultados de exames não permitem autodiagnóstico. A definição diagnóstica e a interpretação do conjunto clínico devem ser realizadas por profissional de saúde habilitado, dentro de sua competência. Em caso de dúvida sobre sintomas, exames, medicamentos, alimentação, tratamento ou qualquer decisão relacionada à saúde, procure orientação de profissional habilitado.

Referências e fontes

Referências apresentadas em formato bibliográfico padronizado segundo convenções da ABNT para documentos online, com link para a fonte consultada e data de acesso.

  1. 1
    BRASIL. MINISTÉRIO DA SAÚDE. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Endometriose. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/pcdt/e/pcdt-endometriose/view. Acesso em: 1 set. 2026.
  2. 2
    WORLD HEALTH ORGANIZATION (WHO). Endometriosis: fact sheet. 2023. Disponível em: https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/endometriosis. Acesso em: 1 set. 2026.
  3. 3
    EUROPEAN SOCIETY OF HUMAN REPRODUCTION AND EMBRYOLOGY (ESHRE). ESHRE guideline: endometriosis. 2022. Disponível em: https://www.eshre.eu/Guidelines-and-Legal/Guidelines/Endometriosis-guideline.aspx. Acesso em: 1 set. 2026.
  4. 4
    EUROPEAN SOCIETY OF HUMAN REPRODUCTION AND EMBRYOLOGY (ESHRE). Non-invasive imaging techniques for diagnosis of pelvic deep endometriosis and endometriosis classification systems: an International Consensus Statement. 2024. Disponível em: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC11134890/. Acesso em: 1 set. 2026.
  5. 5
    NATIONAL LIBRARY OF MEDICINE (US). PUBMED. Registro PubMed 40425755. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/40425755/. Acesso em: 1 set. 2026.
  6. 6
    Human Reproduction Update. Ureteral endometriosis: a systematic review of epidemiology, pathogenesis, diagnosis, treatment, risk of malignant transformation and fertility. 2018. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/30165449/. Acesso em: 1 set. 2026.
  7. 7
    Diagnostics. Endometriosis and the Urinary Tract: From Diagnosis to Surgical Treatment. 2020. Disponível em: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC7650710/. Acesso em: 1 set. 2026.
  8. 8
    Current Urology Reports. Endometriosis and the urinary tract: a review of diagnosis and management. 2022. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/36048338/. Acesso em: 1 set. 2026.
  9. 9
    American Urological Association e Society of Urodynamics, Female Pelvic Medicine & Urogenital Reconstruction. Microhematuria: AUA/SUFU Guideline. 2025. Disponível em: https://www.auanet.org/documents/Guidelines/PDF/2025%20Guidelines/MH%20Unabridged%2002.2025FINAL.pdf. Acesso em: 1 set. 2026.
  10. 10
    European Association of Urology. EAU Guidelines on Urological Infections. 2025. Disponível em: https://uroweb.org/guidelines/urological-infections/chapter/the-guideline. Acesso em: 1 set. 2026.