A ultrassonografia transvaginal com preparo intestinal é um exame de imagem que pode fazer parte da investigação da endometriose, sobretudo quando existe suspeita de endometriose profunda — forma em que as lesões podem atingir estruturas situadas mais profundamente na pelve, incluindo regiões próximas ao intestino. O preparo intestinal busca reduzir interferências causadas pelo conteúdo e pelos gases intestinais, favorecendo a avaliação de determinadas estruturas durante o exame.
Isso não significa que todo exame para investigar endometriose precise de preparo intestinal. A indicação e o protocolo dependem da hipótese clínica, da região anatômica que precisa ser avaliada, da experiência do serviço e da finalidade do exame. Além disso, um resultado normal não exclui todas as formas da doença, principalmente a endometriose peritoneal superficial, que pode não ser identificada pelos métodos de imagem disponíveis.
O que a investigação da endometriose procura esclarecer
A investigação não se resume a localizar uma lesão. Profissionais de saúde procuram reunir informações sobre sintomas, exame físico e exames complementares para compreender se há um conjunto de achados compatível com endometriose, quais regiões podem estar envolvidas e se existe outra explicação possível para as manifestações apresentadas.
A história clínica pode abordar o padrão da dor ao longo do ciclo menstrual, cólicas, dor profunda durante a relação sexual, sintomas intestinais ou urinários que variam com o ciclo, sangramento anormal, dificuldade para engravidar, cirurgias anteriores e impacto das queixas na rotina. Esses elementos podem motivar uma investigação, mas nenhum sintoma isolado confirma a doença.
O exame ginecológico também pode fornecer pistas, como dor à palpação, alterações na mobilidade dos órgãos pélvicos, nodulações ou massas. Entretanto, ele pode ser normal ou inespecífico. Por isso, não deve ser usado sozinho para confirmar ou afastar endometriose.
A investigação pode começar na Atenção Primária e envolver ginecologia, profissionais especializados em imagem ginecológica e, conforme os sintomas ou a localização suspeita, outras áreas. A composição dessa avaliação é individualizada e não precisa ser igual para todas as pessoas.
O que significa “com preparo intestinal”
Na ultrassonografia transvaginal com preparo intestinal, o exame é realizado com um protocolo que busca melhorar a visualização de estruturas pélvicas próximas ao intestino. A redução de gases e de conteúdo intestinal pode facilitar a análise de planos anatômicos e da relação entre órgãos, especialmente em protocolos voltados à suspeita de acometimento retossigmoide, uma região do intestino localizada na parte inferior do abdome e da pelve.
O preparo intestinal não é sinônimo de maior gravidade e não representa, por si só, uma confirmação de endometriose. Ele é um recurso técnico adotado por alguns serviços para determinadas perguntas clínicas. A forma de realização, os critérios utilizados e os cuidados associados podem variar conforme o protocolo institucional; por esse motivo, não cabe transformar a descrição do exame em uma orientação universal de preparo.
Uma revisão sistemática e meta-análise publicada em 2024 avaliou a ultrassonografia transvaginal com preparo intestinal e a comparação com o uso adicional de contraste de água retal na investigação de endometriose retossigmoide. Não foi observada diferença significativa entre os métodos comparados nesse conjunto de estudos. Esse resultado não permite concluir que um protocolo seja superior em todas as situações, nem que o preparo seja indispensável em qualquer ultrassonografia para endometriose.
O que a ultrassonografia pode mostrar
Quando realizada com protocolo adequado e por profissional experiente, a ultrassonografia transvaginal pode contribuir para identificar endometriomas — cistos ovarianos associados à endometriose — e algumas formas de endometriose profunda. Também pode ajudar a avaliar relações anatômicas entre útero, ovários, vagina, bexiga, intestino e outras estruturas pélvicas.
Em protocolos especializados, a avaliação pode ser sistemática. Isso significa que o profissional examina regiões previamente definidas e registra possíveis alterações de forma padronizada. O objetivo pode incluir não apenas detectar uma lesão, mas também descrever sua localização, extensão aparente e relação com estruturas próximas. Essa informação pode ser relevante para o planejamento do cuidado, inclusive quando se discute a necessidade de avaliação por diferentes especialidades.
A qualidade do resultado depende de vários fatores: características anatômicas individuais, localização e tipo de lesão, qualidade do equipamento, protocolo utilizado, condições técnicas do exame e treinamento do examinador. A acurácia observada em centros de referência pode não ser reproduzida em serviços sem a mesma experiência ou padronização.
O que um resultado normal significa
Um exame sem alterações sugestivas pode ser útil, mas não elimina a possibilidade de endometriose. Essa limitação é especialmente importante para a forma superficial da doença, cujas lesões podem não produzir alterações detectáveis na ultrassonografia ou na ressonância magnética.
Também pode haver limitações quando a doença está em uma localização de difícil avaliação, quando o protocolo não foi direcionado à pergunta clínica ou quando os achados são discretos ou inespecíficos. Assim, o resultado do exame precisa ser integrado à história clínica e aos demais dados disponíveis, sem que uma imagem isolada determine, sozinha, a presença ou a ausência da doença.
O inverso também é verdadeiro: uma alteração observada na imagem não deve ser interpretada automaticamente como endometriose. Outras condições ginecológicas, urinárias ou intestinais podem produzir sintomas ou achados semelhantes. A correlação entre localização, características da imagem, sintomas e exame clínico ajuda a diferenciar possibilidades.
Ultrassonografia e ressonância magnética: métodos complementares
A ressonância magnética utiliza campos magnéticos e ondas de rádio para produzir imagens detalhadas. Ela pode ter papel complementar quando é necessário avaliar a extensão anatômica da endometriose profunda, investigar regiões menos acessíveis à ultrassonografia ou esclarecer um resultado inconclusivo.
Não existe uma regra segundo a qual a ressonância seja sempre superior à ultrassonografia, nem a ultrassonografia seja suficiente em todos os casos. O desempenho dos dois métodos varia conforme o fenótipo da doença, o local examinado, o protocolo, a experiência do profissional e a qualidade técnica.
Em alguns contextos, uma ultrassonografia especializada pode oferecer informações muito relevantes sobre a pelve. Em outros, a ressonância pode acrescentar dados importantes para o mapeamento. A escolha entre os métodos — ou a utilização de ambos — pertence à avaliação profissional e depende da pergunta clínica que se pretende responder.
O termo “mapeamento” merece atenção. Ele se refere à descrição anatômica das possíveis áreas afetadas e de sua relação com órgãos próximos. Mapeamento não é o mesmo que confirmação absoluta da doença e também não corresponde, por si só, a um estágio clínico capaz de prever a intensidade dos sintomas. A extensão anatômica e a experiência de dor ou infertilidade podem não apresentar relação direta.
Quando a laparoscopia entra na discussão
A laparoscopia é um procedimento cirúrgico que permite observar a cavidade abdominal e pélvica por meio de pequenas incisões. No passado, ela foi frequentemente considerada necessária antes de qualquer diagnóstico ou tratamento. Diretrizes contemporâneas, porém, reconhecem que a investigação e o cuidado podem ser organizados sem exigir cirurgia em todas as situações.
A laparoscopia ainda pode ser considerada quando a suspeita clínica persiste apesar de exames de imagem negativos ou inconclusivos, quando uma abordagem não cirúrgica não é apropriada ou quando existe uma possível indicação de tratamento cirúrgico. Essa decisão envolve benefícios, riscos, alternativas e objetivos da pessoa, em discussão compartilhada com a equipe de saúde.
Os termos “diagnóstico presumido”, “diagnóstico por imagem”, “diagnóstico cirúrgico” e “confirmação histológica” não são necessariamente equivalentes. Eles representam diferentes níveis de informação e podem ter finalidades distintas. A visualização cirúrgica, a análise de tecido e os achados de imagem devem ser compreendidos dentro do contexto clínico e do protocolo adotado.
Por que exames de sangue não substituem a imagem
O CA-125 é um marcador que pode estar alterado em diferentes situações. Embora possa apresentar elevação em algumas pessoas com endometriose, seu desempenho não é suficiente para confirmar ou excluir a doença na rotina. Por isso, não deve ser tratado como teste diagnóstico ou de triagem para esse fim.
Também não há, atualmente, biomarcador sanguíneo, urinário, salivar ou menstrual validado para substituir a avaliação clínica e os exames de imagem na prática habitual. Pesquisas sobre métodos não invasivos, inteligência artificial e outras tecnologias continuam em desenvolvimento, mas resultados promissores de estudos não equivalem a uma recomendação de uso rotineiro.
Por que pode haver demora na investigação
A endometriose pode apresentar sintomas variados, que se sobrepõem aos de outras condições. A dor pode ser normalizada, o exame físico pode não revelar alterações e os exames de imagem podem ter limitações. Barreiras de acesso, diferenças na capacitação profissional e uso de exames inespecíficos também podem contribuir para trajetórias diagnósticas mais longas.
A literatura descreve o atraso diagnóstico como um fenômeno multifatorial. Não há uma duração única que possa ser aplicada a todas as pessoas ou apresentada como média brasileira sem uma fonte nacional específica. A educação de profissionais e da população, a valorização de sintomas persistentes e a organização de fluxos de encaminhamento são apontadas como componentes importantes para melhorar o cuidado.
Quando procurar avaliação profissional
Dor pélvica persistente ou recorrente, cólicas com impacto significativo na rotina, dor profunda na relação sexual, sintomas intestinais ou urinários relacionados ao ciclo menstrual, alterações de sangramento ou dificuldade para engravidar podem justificar uma conversa com um profissional de saúde. Esses sinais não confirmam endometriose e também podem ocorrer em outras condições.
Sintomas intensos, súbitos ou acompanhados de desmaio, sangramento importante, febre, vômitos persistentes, dificuldade para urinar ou evacuar, ou piora rápida do estado geral merecem avaliação profissional sem demora, pois podem estar relacionados a diferentes situações que exigem análise clínica. A presença desses sinais não permite concluir a causa à distância.
Em resumo
A ultrassonografia transvaginal com preparo intestinal pode ser uma ferramenta valiosa na investigação de algumas formas de endometriose, especialmente quando há suspeita de envolvimento intestinal ou de doença profunda. O preparo não é obrigatório em toda ultrassonografia, e seu valor depende do protocolo e da experiência do serviço.
A interpretação adequada exige integração entre história clínica, exame físico e imagem. A ressonância magnética pode complementar a ultrassonografia em determinadas situações. Nenhum exame normal exclui toda endometriose, e nenhum achado isolado deve ser convertido automaticamente em diagnóstico. A decisão sobre investigação adicional, tratamento não cirúrgico ou cirurgia é individualizada e deve ser discutida com profissionais habilitados.